VIRADA ONTOLÓGICA

 

Introdução

Este verbete busca mostrar uma virada ontológica da hermenêutica ao longo das investigações feitas, principalmente por Ditlhey e Heidegger, que se desenvolvem para uma nova visão e um novo modo de interpretar e compreender o homem a partir das indagações sobre o sujeito.

Passando pela compreensão de Dilthey que vivencia um contexto da ascensão positivista na metodologização das ciências naturais e busca pela compreensão empírica, o mesmo tenta, Dilthey, com as ciências do espírito. Onde foi capaz de fazer o psicologismo somado com a historicidade, desenvolvendo sua hermenêutica.

Heidegger na busca por mostrar uma superficialidade na pesquisa de Dilthey, busca por compreender o ser e suas expressões mais profundas nos acontecimentos do cotidiano e na relação do sujeito para com o mundo, dando uma concepção de Dasein, ou seja, o ser-aí e assim muda a perspectiva de uma hermenêutica um tanto psicólogo para uma nova hermenêutica ontológica que foge de “leis”.

 

SUMÁRIO

 

1.     PSICOLOGISMO, EPISTEMOLOGIA E HERMENÊUTICA EM DILTHEY..2

1.1 Contexto histórico filosófico de Dilthey.2

1.2 Tentativa de uma metodologia das ciências do espírito.2

2.      LEITURA DE HEIDEGGER DE DILTHEY..3

3.     HERMENÊUTICA E ONTOLOGIA..4

3.1 Noção de compreensão ontológica hermenêutica.5

3.2 A hermenêutica da virada, da facticidade à ontologia.5

3.3 O papel da linguagem na hermenêutica da virada.6

4.     Conclusão.6

5.     Referências bibliográficas.7

6.     Biografia do autor.7

 

1.    PSICOLOGISMO, EPISTEMOLOGIA E HERMENÊUTICA EM DILTHEY

Esta primeira seção visa apresentar o caminho que a hermenêutica percorreu ao longo da história, de modo especial de como saiu de Ditlhey e chegou até a formulação ontológica de Heidegger, que busca trazer novamente a hermenêutica para o campo da interpretação, versada no ser-aí (Dasein), e não mais nos textos, psicologismo e historicidade propostos por Dilthey. Dar-se-à efoque ao que Dilthey fez para estruturar toda a sua hermenêutica. 

1.1 Contexto histórico filosófico de Dilthey

Dilthey viveu um período em que propôs uma investigação objetiva do indivíduo, sendo investigador e sintetizador de um pacto entre hermenêutica e história. Dentro de um contexto positivista do século XIX, que valorizava as ciências naturais e a busca por um método que houvesse comprovação a partir da experimentação e objetividade.

O positivismo emerge no início do século XIX, em um contexto marcado pelas transformações da Revolução Industrial e da Revolução Francesa. Seu principal expoente, Auguste Comte, propõe uma filosofia centrada no progresso científico e na ordem social, baseando-se na observação empírica e na busca por leis universais. Influenciado pelo racionalismo e pela secularização, o positivismo sugere que as ciências sociais devem adotar os métodos das ciências naturais, culminando no chamado "estágio positivo" do conhecimento humano.

A filosofia hermenêutica de Wilhelm Dilthey, desenvolvida no final do século XIX, surge como uma ocorrência ao positivismo, especialmente no campo das ciências humanas. Em um contexto influenciado pelo romantismo e pelo historicismo, Dilthey critica a aplicação mecânica dos métodos das ciências naturais às pessoas humanas e sociais.

Ele defende que o objetivo das ciências humanas é a compreensão (Verstehen) dos significados, considerando a subjetividade e o contexto histórico-cultural. Por meio da hermenêutica, Dilthey enfatiza a interpretação de textos, obras de arte e eventos históricos, promovendo uma abordagem qualitativa e singular, em oposição ao universalismo positivista.

1.2 Tentativa de uma metodologia das ciências do espírito

Com a ascensão do positivismo que valoriza de maneira sistemática a experiência e as ciências naturais, Dilthey com a mesma iniciativa tenta desenvolver, com as ciências do espírito, uma metodologia que possa conferir às mesmas uma dimensão científica do sujeito. [1]

Para tal, descreve uma compreensão do homem, a partir de sua historicidade, ou seja, subjetividade que está implícita em seus comportamentos e a partir disso buscando acessar sua capacidade primordial – a de se transportar na vida psíquica de outrem.

Pertencente à escola neokantiana, Dilthey herda esta linha de pensamento que vê o sujeito de modo subjetivo, pela qual mostra-o um “sujeito relacional”, porém individual. A partir disso, considere toda a trajetória pessoal deste como sendo capaz de verificar sinais de sua própria existência, conceito ignorado pelos positivistas: a diferença entre o mundo físico e o mundo psíquico.

Na perspectiva de fugir das restrições hermenêuticas da cultura, ou seja literatura, arte, música, teatro, cinema etc. Dilthey busca por compreender um encademaneto da vida de outrem, sentimentos e vivências. De Husserl, o conceito de psiquismo, em que ele diz não ser possível atingir, mas captar, Dilthey potencializa uma interpretação psíquica estrutural do sujeito em que é comportado algo além dos meros sentimentos. 

Como Dilthey disse que “estabelecer teoricamente contra a intromissão constante da arbitrariedade romântica e do subjetivismo cético (...), a validade universal da interpretação, base de toda certeza em história” [2] , é o caminho seguro de uma hermenêutica. Porém, essa estrutura de interpretação coloca-o num dilema lógico, onde submete a hermenêutica a um problema psicológico. 

Visto que, a proposta hermenêutica de Dilthey seja esta compreensão do sujeito histórico psicológico que é perpassado por encadeamentos vívidos e, que não sejam experimentados por ninguém, demonstra uma tentativa de iniciar uma metodologização hermenêutica distinta para o sujeito e não mais, apenas, para a filologia. 

2. LEITURA DE HEIDEGGER DE DILTHEY

Na perspectiva de transformar a hermenêutica num processo de epistemologia, ou seja, uma ciência que como o positivismo inaugurou de investigação e comprovação para com as ciências da natureza, Dilthey iniciou este percurso e, em seguida, M. Heidegger o desenvolvimento e pode-se dizer que foi mais afundo, dando condições ontológicas. [3]

Há-se uma transformação na teoria do conhecimento, que a interrogação seja precedida até mesmo antes de um ser encontrar outro ser, ou seja, da relação entre sujeito e objeto. Dando possibilidade de um encontro propriamente anterior à experiência sensorial do sujeito.

Na tentativa de psicologia enquanto ciência do espírito e que procura compreender a totalidade da vida, seu desenvolvimento, considerado por Heidegger uma limitação por se tender para uma antropologia filosófica e assim não ser capaz de atingir o ser da pré-sença. Não sendo capaz de compreender o ser da pessoa em ser uma execução de atos racionais, determinados por leis.

A tentativa de Heidegger em mudar o caminho da interpretação e compreensão do sujeito, elevando a hermenêutica para uma discussão, que contribuiuda por Dilthey na busca pelo modo como que o homem é e se expressa, ou seja, num psicologismo, torna-se questionável a relação do ser humano para com o mundo e assim sendo possível a discussão pelo ser. Dando-se, o sujeito a si mesmo, no conhecimento do objeto.

Justamente uma mudança no modo de enxergar uma 'objetivação' das ciências do espírito em que Heidegger sem empenhará, diferenciando-se do método utilizado pelo positivismo para com as ciências naturais, “A hermenêutica não é uma reflexão sobre as ciências do espírito, mas uma explicação do solo ontológico sobre o que essas ciências podem edificar-se.” [4]

3. HERMENÊUTICA E ONTOLOGIA

Martin Heidegger foi uma figura central na filosofia contemporânea, especialmente pelo impacto transformador de sua obra “Ser e Tempo” (1927) no campo da hermenêutica. Ele redefiniu a hermenêutica, deslocando-a de uma prática limitada à interpretação de textos para uma abordagem fundamentalmente ontológica.

Buscando compreender a estrutura do ser por meio de uma análise existencial, focando no conceito de Dasein (ser-aí), ou seja, o modo específico como os seres humanos existem no mundo. Sua contribuição foi importante para mostrar que a interpretação não é apenas um método, mas uma condição essencial da existência humana. Assim, pudemos mudar o modo de enxergar o sujeito e indagar-se sobre o ser, dando um novo curso à hermenêutica herdade de Dilthey. [5]

3.1 Noção de compreensão ontológica hermenêutica

A função da compreensão não é focada no fato, mas sim não sujeito com possibilidade de acesso ao ser. Não apenas interprete um texto e compreenda a expressão do autor em que se encontra, mas um ser-lançado. “Este projeto não possui nenhuma realação com nenhum plano de conduta que o ser-aí teria inventado e segundo o qual edificaria seu ser: enquanto ele é ser-aí, este já se projetou sempre e permanece em projeto enquanto for.” [6]

O caráter “espistêmico” da hermenêutica anterior a Heidegger, considerado por ele como secundário. Heidegger busca uma explicitação baseada em “sich auf etwas verstehen” , “entender-se sobre algo”, ou seja, algo que possa implicar sobre fazer-se pertencer daquele algo que se busca entender dando um caráter de participação e expressão de si.

Um passo importante para a hermenêutica de Heidegger é a consideração do 'cuidado', através dele torna-se possível esboçar a compreensão e com isso chegar à interpretação, de certa forma previnir-se de um mundo ameaçador. “Nela a compreensão se apropria, compreendendo, do que compreendeu. Na interpretação, a compreensão não se torna uma coisa diversa, e sim ela mesma.” [7]

Heidegger traz a conceituação do círculo hermenêutico, onde há-o de forma natural na interpretação e na compreensão, isto é, pertencente a uma estrutura ontológica de cuidado, e assim à pré-estrutura do ser-aí. [8] Não é um círculo que busca objetivamente qualquer hermenêutica e compreensão do Dasein, pois o mesmo não é desprovido de existência.

3.2 A hermenêutica da virada, da facticidade à ontologia

A hermenêutica de Heidegger não visa compreender o ser-a, volta-se à vigilância de Schleiermacher e Dilthey, onde deveria a hermenêutica enraizar-se na compreensão. A partir desta virada ontológica, de maneira radical, Heidegger concebeu a capacidade de tender a interpretação propriamente dita, hermenêutica. A própria interpretação proposta por Heidegger baseia-se na facticidade, ou seja, na busca da manifestação 'das estruturas básicas do ser'.

A hermenêutica dá a possibilidade de tornar acessível cada ser-aí, dando a capacidade de cada qual ser compreensivo de si mesmo e assim chegar através de uma interpretação e de um caminho de propriedade dito e especulado. [9]

 

Dá-se uma imposta à hermenêutica crítica da facticidade, que chama a cada um voltar-se a si mesmo e capaz de atingir sua liberdade. “A hermenêutica executa sua tarefa unicamente na vida da destruição.” [10] , significa destruição, aqui, uma desconstrução da tradição e dando a si própria a necessidade de autopensamento.

3.3 O papel da linguagem na hermenêutica da virada 

A linguagem exerce um papel importante na hermenêutica da virada, pois é chamada, por Heidegger, como a “morada do ser”. É nela que se torna possível e um meio de expressão, no qual tudo pode ser expresso e calculado.

Na tentativa de indagar-se sobre o indizível e enigmático, a hermenêutica ontológica de Heidegger ajuda a interpretar e assim compreender o ser-aí, a partir das ferramentas ao longo das formulações do filósofo, atribuindo-se da relação com o mundo, da facticidade e também, agora, da linguagem sendo ela um tanto tardia, em suas obras,   na compreensão de Heidegger. “É uma linguagem, prossegue Heidegger, que carrega a 'relação hermenêutica'. No final, a pergunta pelo hermenêutico funde-se, consequentemente, com a pergunta sobre a linguagem. Pois, que outra coisa é a linguagem, senão a comunicação de uma mensagem, que deve ser acolhida por uma escuta entendedora?” [11]

De forma tardia, a hermenêutica para Heidegger tornou-se fundamental e parte integrante da interpretação, pois pode-se dizer que, é a capacidade básica de cada ser-aí ser comunicador e ouvinte da linguagem, ou seja, capaz de transmitir mensagem e assim evidenciar um caminho que leva à hermenêutica.

Conclusão

Torna-se possível averiguar a capacidade em que a busca hermêutica atingir e indagar-se sobre o ser humano, tornado assim pela virada ontológica, uma chave que pôde mostrar um outro caminho a percorrer com esta ciência filosófica. Capacitada a deixar de olhar para a filologia, passando pela psicologia e chegando à ontologia heideggeriana.

Todo o caminho em que a hermenêutica percorreu até cair na onotologia mostra que ela tem total capacidade de investigar as experiências básicas e cotidianas, elevando-a permitindo uma compreensão a partir da interpretação proposta por Martin Heidegger.

A virada ontológica hermenêutica representa um deslocamento fundamental nas ciências humanas e sociais, ao propor que a compreensão da realidade não se limita à análise de representações, mas envolve a imersão no tecido ontológico que conecta o ser, o mundo e os significados que emergem dessa relação . Essa perspectiva nos convida a considerar a coemergência do sujeito e do objeto na interpretação, rompendo com dualismos clássicos e favorecendo uma abordagem relacional e contextual.

 Assim, uma virada ontológica não apenas desafia paradigmas epistemológicos tradicionais, mas também inaugura novos horizontes para o diálogo interdisciplinar, valorizando a pluralidade de mundos e práticas de interpretativas. Em última instância, ela nos leva a refletir sobre como habitamos e participamos do mundo, ressaltando o caráter transformador do ato de interpretar como forma de ser no mundo.

REFERÊNCIAS

GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método.  Petrópolis, RJ: Vozes, 1997;

GRONDIN, Jean. Introdução à hermenêutica filosófica  São Leopoldo: Ed. UNISINOS, 1999;

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Campinas, SP: Vozes, 2005;

RICOEUR, Paulo. Interpretação e ideologias. , Rio de Janeiro: F. Alves, 1990;

Biografia do autor

Acadêmico do 4º semestre do curso de filosofia da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), em Campo Grande – MS. Religioso, clérigo, salesiano de Dom Bosco e Pós-noviço em formação inicial na Congregação Salesiana. Natural de Campo Grande – MS, nascido em 14 de novembro de 2002.

 

Artur da Rocha Blanco | E-mail: arthurblanco010@gmail.com



[1] Ricouer,Interpretação e ideologias,1990, p.23

[2] Dilthey, 1947 apud Ricouer,Interpretação e ideologias, 1990, p.26

[3] Ricouer,Interpretação e ideologias,1990, p.31

[4] Ricoeur,Interpretação e ideologias, 1990, p.31

[5] Grondin,Introdução à hermenêutica filosófica,1999, p.157

[6] Heidegger, 1964 apud Ricouer,Interpretação e ideologias,1990, p.33

[7] Heidegger, 1927 apud Grondin,Introdução à hermenêutica filosófica,1999, p. 164.

[8] Grondin,Introdução à hermenêutica filosófica,1999, p.166.

[9] Heidegger, 1988 apud Grondin,Introdução à hermenêutica filosófica,1990, p. 168

[10] Heidegger, 1975 apud Grondin,Introdução à hermenêutica filosófica,1999, p. 169.

[11] Grondin, Introdução à hermenêutica filosófica,1999, p. 177.

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