HERMENÊUTICA E CRÍTICA DAS IDEOLOGIAS EM PAUL RICOEUR
SUMÁRIO
1.
Introdução
2.
Ricœur no Debate entre Gadamer e
Habermas
2.1. Respeito à Tradição (Gadamer)
2.2. Crítica das Ideologias (Habermas)
2.3. A Posição Conciliatória de Ricœur
3.
Crítica às Ideologias em Paul Ricœur
3.1. Função de Integração
3.2. Função de Dominação
3.3. Função de Deformação
4. Conclusão
5. Referências
Bibliográficas
6. Créditos/Biografia
do autor
1. INTRODUÇÃO
A hermenêutica, entendida
como a arte e a ciência da interpretação, ocupa um papel central na filosofia
contemporânea, sobretudo em um contexto de significados diversos que desafiam a
unidade da compreensão. Nesse cenário, Paul Ricœur se destaca ao propor uma
abordagem que equilibra a valorização histórica da tradição hermenêutica com a
análise crítica das ideologias, desmascarando estruturas que moldam as
sociedades.
Ricœur dialoga
diretamente com dois dos maiores pensadores da hermenêutica contemporânea: Hans-Georg
Gadamer, que defende o papel fundamental da tradição no processo de
compreensão, e Jürgen Habermas, que enfatiza a emancipação por meio da crítica
das ideologias. Esses dois pensadores frequentemente se encontram em lados
opostos do debate, mas Ricœur busca superar essa polarização, propondo uma
síntese conciliadora que ele chama de hermenêutica
crítica.
Este verbete explora a posição de Ricœur nesse debate e sua crítica às ideologias. A análise está estruturada em duas partes principais: (1) a interação de Ricœur com Gadamer e Habermas, com ênfase em sua tentativa de conciliação; e (2) a crítica às ideologias, destacando suas funções.
2.
RICŒUR NO DEBATE ENTRE GADAMER E HABERMAS
Ricœur
menciona a necessidade de uma orientação "menos submissa que a de Gadamer
à problemática da tradição"[1],
portanto ele aponta para o fato de que Gadamer confere um papel central à
tradição como mediadora da compreensão. Para Gadamer, a tradição não é algo que
deve ser descartado ou suspeitado, mas uma fonte legítima de autoridade e
sabedoria acumulada que molda o horizonte interpretativo do indivíduo.
Ricœur
reconhece o valor da tradição, mas considera que Gadamer dá um peso excessivo à
sua reabilitação, correndo o risco de torná-la uma estrutura quase
inquestionável: “No entanto, é a essa reflexão que voltarei na segunda parte do
presente estudo, com a esperança de retirar dela uma orientação de pensamento
menos submissa que a de Gadamer à problemática da tradição e, dessa forma, mais
acolhedora da crítica das ideologias.”[2] Para Ricœur, essa postura "submissa" pode
comprometer a capacidade da hermenêutica de realizar uma análise crítica,
especialmente quando as tradições carregam distorções ideológicas ou legitimam
relações de poder.
Habermas
critica Gadamer por confiar demais na tradição, sugerindo que ela pode carregar
distorções ideológicas que perpetuam relações de poder. Em vez disso, Habermas
propõe um ideal de "comunicação sem limite e sem coação"[3],
em que os participantes podem dialogar livremente, sem serem influenciados por
hierarquias ou preconceitos herdados.
No
entanto, Ricœur questiona se o ideal habermasiano realmente supera a crítica de
Gadamer. A questão é: mesmo nesse modelo ideal de comunicação, é possível
escapar completamente da influência da tradição? Para Gadamer, não. Ele
argumenta que toda comunicação humana está historicamente condicionada, e mesmo
o esforço de emancipação de Habermas estaria, de alguma forma, influenciado por
tradições e preconceitos: "A questão que permanece consiste em saber se o
ideal de uma comunicação sem limite e sem coação, que Habermas opõe ao conceito
de tradição, escapa ao argumento de Gadamer"[4].
Portanto,
Ricœur reconhece a validade da crítica de Habermas à tradição, mas também
admite a força do argumento de Gadamer sobre a inevitabilidade da influência
histórica. Para Ricœur, a tradição não pode ser ignorada nem rejeitada, pois é
fundamental para a compreensão humana. Ao mesmo tempo, ele concorda com
Habermas que é necessário um exame crítico das tradições para revelar possíveis
distorções ideológicas.
Ricœur
busca um equilíbrio, propondo que a interpretação histórica exige tanto
respeito pela tradição quanto uma atitude crítica que desafie suas limitações.
Esse equilíbrio é o cerne de sua hermenêutica crítica.
2.1.
RESPEITO A TRADIÇÃO (GADAMER)
Hans-Georg
Gadamer, em Verdade e Método, fundamenta
sua hermenêutica na ideia de que toda compreensão humana está mediada pela
tradição. Ele critica a tentativa moderna de separar a razão do contexto
histórico e cultural em que ela está inserida (GADAMER, 1997). De acordo com
Lima, Perius e Bolwerk a verdade está ligada diretamente à história, e
portanto, a tradição. Afinal, qualquer análise que possamos fazer nos é
precedida por pré-concepções herdadas de uma tradição: “A historicidade fundamental deste ato faz com
que não se possa mais continuar pensando a verdade como algo pronto, que
simplesmente teria que ser descoberta. Ao invés disso, a verdade acontece, se
produz. Ou seja, a verdade vai se lapidando pela historicidade.”[5] Na
sequência do raciocínio, percebe-se a proposta de que o ato de compreender é
sempre um diálogo entre o intérprete e a história:
O círculo hermenêutico de Gadamer gira em torno do problema que parte da
pré-compreensão para alcançar a compreensão. Assim, fatores ligados à tradição,
ao modus vivendi, bem como à historicidade do contexto social são levados em
conta para se granjear a hermenêutica filosófica do autor.[6] (LIMA, PERIUS, BOLWERK, 2022, p.113)
Esse
diálogo é possibilitado pela fusão de
horizontes, como nos explica Ricœur:
Desse conceito insuperável de fusão dos
horizontes a teoria do preconceito recebe sua característica mais típica: o
preconceito é o horizonte do presente, é a finitude do próximo em sua abertura
para o longínquo. Dessa relação com o próprio e com o outro o conceito de
preconceito recebe seu último toque dialético: é na medida em que me transporto
para o outro, que me descubro a mim mesmo, com meu horizonte presente, com meus
preconceitos. É somente nessa tensão entre o outro e o próprio, entre o texto
do passado e o ponto de vista do leitor, que o preconceito se torna operante,
constitutivo de historicidade.[7]
(RICŒUR, 1990, p.116)
O
horizonte do intérprete e o horizonte histórico do texto se encontram e se
transformam mutuamente. “Na fusão de
horizontes entre o sujeito que compreende e o objeto a ser compreendido, a
verdade acontece. Há uma produção da verdade no próprio ato de compreender.”[8],
“Logo, o que importa nesse ponto de vista
hermenêutico de Gadamer é perceber as próprias antecipações de forma que o
texto se apresente em sua alteridade e gere, daí, a possibilidade de confronto
entre as verdades do texto e as verdades prévias do sujeito.”[9]
Portanto,
Gadamer rejeita a ideia de que os preconceitos (Vorurteile) são
necessariamente negativos:
O saber histórico não pode libertar-se da condição histórica. É por isso
que o projeto de uma ciência livre de preconceitos torna-se impossível. É a
partir de uma tradição que a interpela que a história coloca ao passado
questões significativas, persegue uma pesquisa significativa, atinge resultados
significativos.[10] (RICŒUR, 1990, p.116)
Para
ele, os preconceitos são pré-compreensões que moldam nossa visão de mundo e
permitem que o diálogo com o texto ocorra. No entanto, isso não significa que
os preconceitos sejam inquestionáveis; eles podem ser desafiados no processo de
interpretação, “...grande parte dos efeitos nocivos destes pré-conceitos,
vistas parciais que podem induzir a erros, poderão ser desativados quando forem
aceitos que eles existem e for realizado o esforço de torná-los conhecidos
para, assim, ir para além deles.”[11]
Ricœur valoriza
essa concepção de Gadamer, especialmente sua ênfase na historicidade da
compreensão. Ele concorda que a tradição desempenha um papel indispensável na
construção do significado, mas sugere que Gadamer subestima a necessidade de um
distanciamento crítico. Para Ricœur, o diálogo com a tradição deve ser
complementado por uma análise que revele as distorções ideológicas que podem
estar ocultas na herança cultural.
2.2. CRÍTICA DA IDEOLOGIAS (HABERMAS)
Jürgen
Habermas, em contraste, foca na emancipação social por meio da crítica às
tradições e ideologias. Segundo Ricœur: “As
ciências sociais críticas se dão por tarefa discernir, sob as regularidades
observáveis das ciências sociais empíricas, formas de relações de dependência ‘ideologicamente
fixas’, reificações que só podem ser transformadas criticamente.”[12]
Essas relações são sustentadas por ideologias que mascaram as dinâmicas reais
de poder e dominação, fazendo com que pareçam naturais, inevitáveis ou justas.
Por meio das ciências sociais críticas deseja desconstruir a ideia de que as
relações de poder são coisas ou
entidades imutáveis, em vez de construções sociais que podem ser alteradas, “...que
está plenamente inserido na tradição moderna [...] que se ocupa em fazer uma
crítica radical de todo dogmatismo a partir de uma aposta radical na razão e na
capacidade racional dos seres humanos em construir seu próprio destino.”[13]
Portanto,
o que regula o trabalho das ciências sociais críticas é o interesse pela
emancipação: “Portanto, é o interesse pela emancipação que regula o enfoque
crítico. Habermas chama esse interesse também de auto-reflexão”[14],
essa emancipação, segundo Habermas, é alcançada por meio da auto-reflexão: um
processo no qual os indivíduos e as sociedades se tornam conscientes das forças
que os condicionam e dominam, possibilitando que resistam a elas. A
auto-reflexão tem um papel crucial porque não se limita a um exame externo das
relações de poder; ela envolve o sujeito crítico no processo de transformação,
permitindo que ele reconheça sua própria participação ou subordinação nas
estruturas dominantes, “liberta o sujeito da dependência a poderes
hipostasiados.”[15]
Ele
argumenta que a tradição frequentemente legitima estruturas de poder
opressivas. Na Teoria da Ação Comunicativa, ele defende que a
comunicação ideal deve ser isenta de coerções e manipulações ideológicas. Sua
crítica a Gadamer baseia-se na ideia de que o respeito irrestrito à tradição
pode perpetuar relações de dominação.
Habermas
identifica as ideologias como distorções do entendimento que mascaram relações
de poder. Ele defende que a racionalidade crítica deve ser aplicada às
tradições para desmascarar essas distorções. Essa postura coloca Habermas em
uma posição de confronto com Gadamer, pois ele acredita que o diálogo
hermenêutico, sem uma crítica sistemática, corre o risco de ser conivente com a
opressão:
Em outras palavras, o que Habermas está tentando encontrar é um critério
a partir do qual a crítica da realidade, e das ideologias que legitimam esta
realidade possa ser feita, isenta de qualquer ação coercitiva, vez que da ação
é preciso depreender por uma conduta espontânea, cuja naturalidade decorre dos
fatos em si e como eles de maneira íntegra se desencadeiam.[16]
(LIMA, PERIUS, BOLWERK,
2022, p.117)
Ricœur
reconhece a importância da crítica de Habermas, especialmente em sua análise
das ideologias. No entanto, ele discorda do que considera ser uma ênfase
excessiva na desconfiança. Para Ricœur, é necessário equilibrar a crítica com a
compreensão, para evitar cair no reducionismo que trata toda tradição como
ideologicamente distorcida. "O que
nos impede de proceder assim é justamente o fenômeno ideológico."[17]
Ricœur identifica a ideologia como o principal obstáculo para que o ideal de
comunicação possa ser realizado de forma plena. A ideologia não é apenas uma
barreira externa, mas um fenômeno interno às interações humanas, que distorce a
compreensão e impede o consenso genuíno.
Para
Ricœur, a ideologia não é uma simples "não-compreensão"[18]
que pode ser superada por meio de diálogo racional. Ela opera de forma mais
profunda, moldando percepções, discursos e relações de poder de maneira
invisível. Essas distorções não podem ser completamente eliminadas, pois fazem
parte da estrutura das interações sociais.
2.3.
A POSIÇÃO CONCILIATÓRIA DE RICŒUR
Paul
Ricœur busca uma posição mediadora, que una o respeito à tradição, defendido
por Gadamer, e a crítica das ideologias, central na obra de Habermas. No centro
de sua proposta está o conceito de integração entre apropriação e
distanciamento crítico, uma abordagem que Ricœur desenvolve para reconciliar o
papel indispensável da tradição com a necessidade de emancipação e
transformação social.
Para
Ricœur, a apropriação refere-se ao movimento de abertura ao texto ou à
tradição, no qual o intérprete tenta compreender o sentido que emerge do
diálogo com o passado. Esse processo, inspirado pela fusão de horizontes de
Gadamer, reconhece que a compreensão é sempre situada em um contexto histórico
e linguístico.
Ricœur
argumenta que a apropriação não é uma simples absorção passiva, mas um engajamento
ativo. O sentido não está meramente no texto, mas na interação que ocorre entre
o texto e o leitor. “Todavia, se o distanciamento de si mesmo não é um modo
errado a se combater, mas a condição de possibilidade da compreensão de si
mesmo diante do texto, a apropriação é o complemento dialético do
distanciamento.”[19] Assim, ao se apropriar de
um texto, o intérprete revitaliza seu significado, permitindo que ele dialogue
com os desafios e questões contemporâneas. Esse movimento valoriza a profundidade
e a riqueza histórica da tradição, ao fornecer o pano de fundo necessário para
qualquer interpretação significativa.
O
distanciamento crítico, por outro lado, representa a necessidade de questionar
a tradição e o texto, revelando possíveis distorções ideológicas ou relações de
poder ocultas. Toda interpretação autêntica deve ser acompanhada pela
capacidade de desmascarar os interesses ideológicos que moldam o discurso. O
distanciamento crítico permite ao intérprete abordar a tradição de forma
reflexiva, avaliando suas limitações e identificando narrativas que legitimam
estruturas de dominação.
A
inovação de Ricœur reside em sua capacidade de integrar esses dois movimentos
aparentemente opostos. “Mas, se é assim,
será que uma crítica das distorções pode separar-se da experiência comunicativa,
justamente onde ela começou, onde é real e exemplar?”[20]
Ele argumenta que a interpretação genuína ocorre no espaço dinâmico entre
apropriação e distanciamento crítico, onde o intérprete consegue simultaneamente
valorizar a tradição e questioná-la. “Ainda que a tradição venha a se impor em
cada ato de interpretar, não há possibilidade de uma mera reprodução neutra e
acrítica da mesma.”[21]
A
crítica, a tradição e a emancipação estão profundamente interligadas. “Só
criticamos distorções em nome de um consenso que não podemos antecipar
simplesmente no vazio, à maneira de uma idéia reguladora, a não ser que esta
seja exemplificada”[22].
A crítica só faz sentido quando está fundamentada em um ideal de consenso, que,
por sua vez, é exemplificado em práticas concretas, como a interpretação do
passado. A tradição, longe de ser um obstáculo à emancipação, é uma condição
necessária para sua realização. Reinterpretar o passado não é apenas um ato de
compreensão, mas também um exercício de imaginação que nos capacita a projetar
um futuro mais livre e justo.
Compreender
é tanto escutar a voz da tradição quanto interrogar suas possíveis distorções. Ele
acredita que somente ao integrar esses dois movimentos o intérprete pode
alcançar uma visão mais equilibrada e profunda. Afinal: “É bem provável que
quem não é capaz de reinterpretar seu passado, também não seja capaz de projetar
concretamente seu interesse pela emancipação.”[23]
Esse
equilíbrio é especialmente importante no contexto de ideologias. A apropriação
permite que o intérprete identifique as funções construtivas da ideologia, como
sua capacidade de integrar e organizar a sociedade. Já o distanciamento crítico
revela suas funções deformadoras e dominantes, permitindo uma análise mais
abrangente e emancipada.
No
entanto, Ricœur sugere que o crítico das ideologias precisa ir além da denúncia
e da desconstrução das distorções ideológicas. Ele deve propor caminhos
concretos para a emancipação, que passam pelo "despertar da ação
comunicativa"[24].
Esse despertar, por sua vez, depende de uma relação viva e criativa com a
tradição. A emancipação não é uma ruptura total com o passado, mas uma
continuidade crítica, onde a herança cultural é reinterpretada para responder
aos desafios do presente. Essa perspectiva reflete o equilíbrio característico
de Ricœur entre tradição e crítica, mostrando que a transformação social exige
tanto a valorização do passado quanto a busca por um futuro mais livre e
comunicativo.
A
hermenêutica e a crítica estão enraizadas em tradições diferentes, mas
igualmente importantes. A hermenêutica
olha para o passado e encontra significado na “tradição da rememoração”[25],
no entanto, a crítica não é independente da tradição. Ricœur faz uma afirmação
poderosa: "A crítica também é uma tradição."[26]
Ele reconhece que a crítica, mesmo quando busca desconstruir tradições, está
enraizada em uma herança histórica. No caso da crítica, essa herança é a “tradição
da emancipação”[27], que tem suas raízes no
Iluminismo e nos atos históricos de libertação.
Ricœur
argumenta que, para que o debate entre hermenêutica e crítica seja produtivo, é
necessário reconhecer essa interdependência. “Talvez não houvesse mais
interesse pela emancipação, mais antecipação da libertação, se fosse apagada do
gênero humano a memória do Êxodo, a memória da Ressurreição.”[28]
A emancipação só é possível quando está conectada a uma memória viva do
passado, que oferece os recursos simbólicos para transformar o presente e
projetar o futuro. Assim, ele sugere que tradição e crítica não são opostas,
mas complementares, cada uma enriquecendo e ampliando o alcance da outra.
“Desta forma, a partir destas palavras de Paul Ricœur,
parece realmente claro que apesar de cada uma das posições, hermenêutica e
dialética, ou crítica das ideologias, ter sua ênfase e interesse dirigidos para
aspectos próprios, num panorama geral é preciso sempre pensá-las em conjunto.”[29]
Desse
modo, nos oferece uma visão profundamente integradora, que recusa a polarização
entre tradição e emancipação. Ele argumenta que a filosofia deve evitar as
"oposições enganadoras"[30]
que isolam esses interesses, mostrando que a transformação só é possível quando
enraizada em uma memória viva do passado, e que a tradição só permanece
significativa quando aberta à renovação crítica. Se os interesses que permeiam
a hermenêutica e a crítica “se separarem radicalmente”[31],
elas deixam de cumprir seu papel filosófico e se tornam instrumentos
ideológicos, perdendo sua capacidade de oferecer um entendimento equilibrado e
uma transformação genuína.
Ricœur,
portanto, propõe um equilíbrio dinâmico, em que tradição e emancipação se
reforçam mutuamente. Essa relação dialética entre tradição e emancipação é um
dos pilares da hermenêutica crítica de Ricœur, que busca superar as limitações
de abordagens unilaterais, oferecendo uma visão mais rica e prática para os
desafios contemporâneos.
3. CRÍTICA
ÀS IDEOLOGIAS EM PAUL RICŒUR
Ricœur oferece uma análise sofisticada das ideologias, identificando três funções principais. Sugere que essas funções não devem ser vistas apenas como negativas. A ideologia é inevitável na organização da vida social, mas precisa ser constantemente submetida à crítica para evitar abusos.
3.1.
FUNÇÃO DE INTEGRAÇÃO
A
função de integração da ideologia é o aspecto que assegura a coesão simbólica
dentro de uma sociedade. Segundo Ricœur, a ideologia atua como um sistema de
significados que confere legitimidade às práticas culturais, políticas e
sociais, criando um senso de pertencimento e continuidade histórica. Ele afirma
que: “A idéia de relação social acrescenta a esse duplo fenômeno de
significação de ação e de orientação mútua a idéia de uma estabilidade e de uma
previsibilidade de um sistema de significações."[32]
Desse modo utiliza a análise da ação social e da relação social para sugerir
que a ideologia desempenha um papel essencial na manutenção do sistema de
significações, assegurando estabilidade e coesão social. Portanto, a ideologia
não é apenas uma deformação da realidade, mas também uma integração necessária
da vida social, pois organiza os símbolos que estruturam as interações humanas.
Essa integração não é vista apenas como algo positivo, mas como uma necessidade
para que grupos humanos possam se organizar e compartilhar objetivos comuns.
Para
Ricœur, a função de integração da ideologia está intimamente ligada à dimensão
simbólica da vida social. Ele sugere que: “Está ligado à necessidade, para um
grupo social, de conferir-se uma imagem de si mesmo, de representar-se, no
sentido teatral do termo, de representar e encenar."[33]
Sendo assim, a ideologia funciona como uma matriz simbólica que dá sentido às
instituições e práticas coletivas. Os símbolos, narrativas e mitos organizados
pela ideologia têm o poder de sustentar identidades culturais e orientar a ação
social. Por exemplo: mitos fundadores; e ritos e práticas
sociais. Esses aspectos mostram como a ideologia desempenha um papel essencial
na manutenção da ordem simbólica de uma sociedade.
Embora
Ricœur reconheça o valor da função de integração da ideologia, ele também
aponta para sua ambivalência: “A ideologia
é ao mesmo tempo efeito de usura e resistência à usura.”[34]
Enquanto fornece coesão e significado, a ideologia pode legitimar desigualdades
e perpetuar relações de poder, ou seja, temos duas formas de integração: 1. Integração Positiva: A ideologia cria
estabilidade social, promove um senso de pertencimento e dá significado às
ações coletivas; 2. Integração
Deformadora: Em alguns casos, a ideologia mascara desigualdades e
conflitos, apresentando estruturas de dominação como naturais ou inevitáveis.
Ele destaca que essa ambivalência exige uma
abordagem crítica, na qual a função de integração seja constantemente avaliada
à luz das suas implicações éticas e políticas.
Sua análise aplica a noção de função de integração a
diversos contextos sociais: 1. Política:
A ideologia política organiza valores e narrativas que legitimam a autoridade e
o governo, promovendo estabilidade. Por exemplo, em democracias, conceitos como
"soberania popular" e "direitos individuais" são símbolos
que integram os cidadãos em torno de um ideal comum. Porém, também pode
mascarar injustiças e perpetuar desigualdades; 2. Religião: As tradições religiosas frequentemente fornecem os
fundamentos simbólicos para a integração social. A Bíblia, por exemplo, contém
narrativas que moldam valores éticos e promovem coesão cultural, mas, em alguns
contextos, podem ser usadas para justificar exclusões ou dogmatismos; 3. Cultura: Narrativas culturais, como
mitos e histórias nacionais, também desempenham um papel integrador, ajudando a
construir identidades coletivas e a preservar a continuidade histórica, mas
também podem reforçar estereótipos e limitar a diversidade.
Portanto, para Ricœur, a ideologia possui uma força
paradoxal: essencial para a integração e continuidade social, mas também uma
fonte de distorção e dominação. Sua análise convida a uma reflexão profunda
sobre como a ideologia pode ser criticada e transformada, sem perder essa
função de integração, para que contribua para uma sociedade mais justa e
inclusiva.
3.2.
FUNÇÃO DE DOMINAÇÃO
Ricoeur
destaca que sempre há mais na pretensão de legitimação de uma autoridade do que
na crença dos indivíduos em sua legitimidade. Ou seja, a autoridade sempre
exige mais do que a crença popular pode sustentar. Essa discrepância é vista
como um fenômeno de "mais-valia", que
não se refere apenas ao valor econômico, mas ao excesso que a autoridade exige
de seus súditos. Ela demanda mais credibilidade e aceitação do que as pessoas
podem genuinamente oferecer ou acreditar. “Direi
que há sempre mais na pretensão que vem da autoridade do que na crença que vai
à autoridade.”[35]
Para
ele, a ideologia não é simplesmente uma falsa consciência, mas um fenômeno
complexo que desempenha um papel essencial na construção e manutenção de
sistemas de poder. Ela atua como uma ferramenta que legitima certas formas de
organização social e política, assegurando que uma visão de mundo,
frequentemente construída e mantida por elites, seja vista como natural ou
inevitável pela sociedade. “Vejo aí um
fenômeno irredutível de mais-valia, se entendemos por isso o excesso da demanda
de legitimação relativa mente à oferta da crença.”[36]
A
ideologia entra neste ponto como um "substitutivo" dessa mais-valia.
Ou seja, a ideologia é usada como uma justificativa para a dominação,
preenchendo essa lacuna entre a pretensão da autoridade e a crença verdadeira
dos indivíduos. “É aqui que a
ideologia se afirma como o substitutivo da mais-valia e, ao mesmo tempo, como o
sistema justificativo da dominação.”[37]
Em
outras palavras, a ideologia ajuda a consolidar um tipo de dominação que não
depende apenas da repressão direta, mas também da internalização de uma visão
de mundo que impede o questionamento das relações de poder existentes.
3.3.
FUNÇÃO DE DEFORMAÇÃO
Em
sua forma mais distorcida, as ideologias mascaram a realidade e manipulam as
percepções em favor de interesses específicos. “Por conseguinte, é quando o papel mediador da ideologia encontra o
fenômeno da dominação que o caráter de distorção e de dissimulação da ideologia
passa ao primeiro plano.”[38]
Ricoeur argumenta que as ideologias não apenas ocultam ou justificam as
desigualdades de poder, mas também deformam a percepção dos indivíduos e das
coletividades sobre o mundo e sobre si mesmos. Elas atuam transformando as
experiências e as interpretações da realidade, afastando-as da objetividade e
da clareza, ao criar uma narrativa que favorece determinadas visões de mundo,
frequentemente em benefício de interesses dominantes.
A
deformação ideológica, segundo Ricoeur, é um processo que manipula a
compreensão das pessoas sobre suas próprias condições sociais, fazendo com que
elas aceitem determinadas ideias como verdades naturais, quando, na realidade,
essas ideias são construídas para servir a interesses específicos. "O fato
decisivo é que a ideologia é definida ao mesmo tempo por seu conteúdo. Se há
inversão, é por que certa produção dos homens, enquanto tal, é inversão."[39]
Ricoeur sugere que essa inversão ocorre porque a
ideologia é, em grande parte, uma produção humana que, de certa forma,
"inverte" ou distorce as verdades sobre o mundo e a sociedade. Ou
seja, a ideologia não apenas reflete as realidades existentes, mas modifica,
transforma e distorce essas realidades, fazendo com que as pessoas aceitem uma
versão alterada do que está acontecendo ao seu redor.
Portanto,
Ricoeur está dizendo que a ideologia, ao produzir um conteúdo específico, não
apenas justifica a dominação, mas também a distorce e inverte, criando uma
visão da realidade que serve aos interesses daqueles que estão no poder. Ela
transforma a compreensão que as pessoas têm de si mesmas e das condições
sociais, econômicas e políticas em que estão inseridas, muitas vezes de forma a
torná-las mais submissas ou resignadas a essa dominação.
4.
CONCLUSÃO
Paul Ricœur apresenta uma
visão profundamente dialética e inovadora sobre a hermenêutica e a crítica das
ideologias. Sua capacidade de mediar entre abordagens aparentemente opostas – a
valorização da tradição de Gadamer e a crítica emancipatória de Habermas –
reflete não apenas a riqueza de sua análise, mas também a urgência de abordar
questões contemporâneas de maneira equilibrada e crítica.
Ricœur demonstra que
compreender é um processo dinâmico que exige tanto o respeito pelas tradições
que moldam nossa identidade quanto a coragem de questioná-las para desmascarar
possíveis distorções ideológicas. Esse movimento entre apropriação e
distanciamento crítico não apenas enriquece o entendimento humano, mas também
permite uma emancipação fundamentada em uma memória viva do passado.
Ao identificar funções
integradoras, dominadoras e deformadoras, Ricœur oferece uma visão abrangente
que evita reducionismos e explora as interações entre cultura, política e
sociedade. Ele propõe uma abordagem reflexiva, que reconhece tanto o papel das
tradições na coesão social quanto sua capacidade de perpetuar estruturas
opressivas.
Assim, a hermenêutica crítica de Ricœur não apenas ressignifica o papel da interpretação na filosofia, mas também aponta caminhos para uma transformação social que respeite a profundidade histórica enquanto busca um futuro mais justo e inclusivo. Essa perspectiva integradora se torna um convite para revisitar e reinterpretar as tradições e ideologias, cultivando um diálogo entre passado e presente que possa enriquecer a prática filosófica e a vida em sociedade.
5.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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e Ideologias. Tradução de Antônio Paim e Hilton Japiassú. 2ª ed. Rio
de Janeiro: Francisco Alves, 1990. https://marcosfabionuva.com/wp-content/uploads/2011/08/interpretac3a7c3a3o-e-ideologias.pdf
LIMA, Laís de Carvalho;
PERIUS, Oneide; BOLWERK, Aloísio. O debate Gadamer-Habermas: um ensaio sobre
a aparente dicotomia entre tradição e autonomia na hermenêutica filosófica.
Aufklärung, João Pessoa, v. 9, n. 2, p. 109-120, maio-ago. 2022. https://periodicos.ufpb.br/index.php/arf/article/view/61358/36354
MELO, Marina Félix de. Hermenêutica
e dialéctica: Gadamer e Habermas na metodologia das Ciências Sociais. Revista
Angolana de Sociologia, n. 10, p. 11-20, dez. 2012. https://journals.openedition.org/ras/pdf/172
GRONDIN, Jean. Introdução
à hermenêutica filosófica. São Leopoldo: Unisinos, 1999. https://www.academia.edu/42681020/Grondin_Introdu%C3%A7%C3%A3o_%C3%A0_hermen%C3%AAutica_filos%C3%B3fica
GADAMER, Hans-Georg. Verdade
e Método. Tradução de Flávio Paulo Meurer. Petrópolis, RJ: Vozes,
1997.
https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2442370/mod_resource/content/1/VerdadeEM%C3%A9todo.pdf
6.
CRÉDITOS/BIOGRAFIA DO AUTOR
Guilherme Racim de Almeida, 35 anos,
natural de Campo Grande, Mato Grosso do Sul.
Formação acadêmica: Engenharia Elétrica,
Bacharelado, Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS)
Religioso Salesiano de Dom Bosco (SDB)
Atualmente, estudante do 4º semestre do
curso de Filosofia da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB)
[1]
RICŒUR, Paul. Interpretação e Ideologias. Tradução de Antônio Paim e
Hilton Japiassú. 2ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990, p. 105.
[2]
Ibidem.
[3]
Ibidem, p. 119.
[4]
Ibidem, p. 117.
[5]
LIMA, Laís de Carvalho; PERIUS, Oneide; BOLWERK, Aloísio. O debate Gadamer-Habermas: um
ensaio sobre a aparente dicotomia entre tradição e autonomia na hermenêutica
filosófica. Aufklärung, João Pessoa, v. 9, n. 2, p. 109-120,
maio-ago. 2022, p.114.
[6]
Ibidem, p.113.
[7]
RICŒUR, op. cit., p. 116.
[8]
LIMA; PERIUS; BOLWERK, op. cit., p. 114.
[9]
MELO, Marina Félix de. Hermenêutica e dialéctica: Gadamer e Habermas
na metodologia das Ciências Sociais. Revista Angolana de
Sociologia, n. 10, p. 11-20, dez. 2012, p.13.
[10]
RICŒUR, op. cit., p. 116.
[11]
LIMA; PERIUS; BOLWERK, op. cit., p. 114.
[12]
RICŒUR, op. cit., p. 124.
[13]
LIMA; PERIUS; BOLWERK, op. cit., p.115.
[14]
RICŒUR, op. cit., p. 124.
[15]
Ibidem.
[16]
LIMA; PERIUS; BOLWERK, op. cit., p.117.
[17]
RICŒUR, op. cit., p. 128.
[18]
Ibidem.
[19]
RICŒUR, op. cit., p. 139.
[20]
Ibidem, p. 142.
[21]
LIMA; PERIUS; BOLWERK, op. cit., p.119.
[22]
RICŒUR, op. cit., p. 142.
[23]
Ibidem.
[24]
Ibidem, p. 144.
[25]
Ibidem, p. 145.
[26]
Ibidem.
[27]
Ibidem.
[28]
Ibidem.
[29]
LIMA; PERIUS; BOLWERK, op. cit., p.118.
[30]
RICŒUR, op. cit., p. 146.
[31]
Ibidem.
[32]
RICŒUR, op. cit., p. 67.
[33]
Ibidem, p. 68.
[34] Ibidem,
p. 71.
[35]
Ibidem, p. 72.
[36] Ibidem.
[37] Ibidem.
[38]
Ibidem.
[39] Ibidem,
p. 73.
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