A HERMENÊUTICA DA FATICIDADE
INTRODUÇÃO
O texto em questão, aborda e elenca os conceitos de vida fática e a experiência, e como essas duas se entrelaçam, assim, passa-se a analisar o conceito de Facticidade e sua abordagem como condição de vida. Para isso, descrevemos o conceito também de hermenêutica e no decorrer de todo o texto, ver a relação que essas temáticas possuem em conjunto, sob a ótica principal e das obras do filósofo alemão Martin Heidegger. Notando assim, a nova abordagem e função que Heidegger dá para uma missão da hermenêutica, com um sentido mais especializado do ser-aí existencial, do que os sentidos antropológicos tradicionais [1] .
Este verbete, procura abordar vários conceitos fundamentais para a hermenêutica, principalmente, no seu quesito mais moderno. É-se abordado temas como: Experiência e vida fática, Facticidade, Hermenêutica, e a hermenêutica da facticidade. É válido pontuar, que não se está tratando especificamente da vida fática em si mesma, apesar de dar-se grande importância para a mesma, no decorrer do verbote, entretanto, seguir a linha de Matin Heidegger que depois de um longo período de estudos, utiliza-se de uma nova abordagem em seu Ser e Tempo , de não mais vida fática e sim do ser-aí o conhecido Daisen [2] .
A partir disso, desenvolver a relação do ser-aí , com suas relações de existência no mundo e também no cotidiano, essa relação interligada, não conceitual, mas, de “estar sendo”.
RESUMO
1. Experiência e Vida Fática; - crítica as filosofias da vida
2. Facticidade – condição da vida
3. Hermenêutica – conceito
4. A Hermenêutica da Facticidade
5. Referências
1. EXPERIÊNCIA E VIDA FÁTICA
A experiência fática da vida, tem por base e pressupõe que, a vida fática, não é um conceito em si, isto é, não se expressa por um conceito. Entretanto, a mesma se define como uma experiência de vida e de fato, como sua característica. Sendo assim, o ato de experimentar, o ato propriamente dito de viver, de presenciar, e até testemunhar determinada ocasião e acontecimento. Porém, não é possível afirmar que a experiência seja só isso, ela é propriamente também, o conteúdo da vivência experimentada.
O conceito fático, não é algo que deva ser abordado com um quesito ou em tom conceitual somente, como algum conceito isolado, tendo por pressuposto a teoria do conhecimento. Porém, ele deve ser abordado em seu cerne como um conceito dado e irremediavelmente, notado e analisado do ponto de vista histórico. Isto é, deve ser visto como um conceito histórico, não dogmático, nem fixo, mas, sem tempo. [3]
Nesse contexto, o experimentar, a ação, e o experimentado, que se pode dizer, o objeto, não pode ser colocado um ao lado do outro. Pois, assim, sendo, experimentar, não tem o mesmo significado de tomar conhecimento, mas, sim, uma relação de comparação com o que é experimentado e vivido. Dessa forma, o 'Fático', não significa uma realidade natural, nem biológica, por exemplo, nem muito menos, significa uma determinação causal nem coisa concreta em si. [4]
Sendo assim, não descartando seu caráter relacional com a experiência própria de vida fática que é vívida e experimentada pelo sujeito e algo relevante situado no tempo, como algo que se dá, como algo que afeta e é vívido pelo ser, ou seja, algo que se dá e acontece concreta e propriamente no mundo, em relação característica e embricada no ser. [5]
É claro que a vida fática é articulada, conceitualmente com as próprias experiências do mundo circundante e significativa. Para, a partir daí, existir um resultado de esclarecimento da experiência do mundo existente, enquanto seu existir na significatividade, pois, só foi possível e viável compreender tão estrutura, porque Heidegger, inventou a vida fática, quanto estrutura fundamental da existência humana em si . [6]
De que vai surgir a experiência fática? A mesma coisa, surgirá não de uma tomada de conhecimento, um ato conceitual irremediável, porém, surgirá de um processo em que no mesmo, ocorrerá um confronto consigo mesmo, um confronto com aquilo, com aquela situação em que se experimentou. O fato é que, o caráter dessa experiência vívida e confrontada vai se dar ou de forma positiva ou negativa, dependendo do contexto que aí se dá na realidade do ser. Para dizer que, o fático não é em si, conceitual e nem parte e nem tem seu fim em coisas puramente naturais. [7]
2.
FACTICIDADE
A facticidade se coloca como uma condição, condição que mostra em si, um caráter ontológico do ser humano como o “ ser aí” . Veja-se em Heidegger , que a facticidade enquanto tal, é uma designação para o caráter ontológico de nosso ser-aí próprio. A rigor, mais detalhadamente, essa expressão tem por significado, esse será aí, em cada ocasião em que se dá. Um demorar-se, não ter pressa, pois, o ser aí, está junto, isso na medida do seu caráter ontológico e realmente não tocar ao ser. [8]
Portanto, é o ser aí , não como simplesmente um conceito dado, um objeto simplesmente existente e com uma função cerceada e específica, porém, um ser aí , dotado de vivacidade e de existência. E, sendo assim, possuindo existência, ele é capaz de compreender a si mesmo, enquanto ser e também no ato de viver. Para dizer e descrever, o Dasein
de Heidegger, dito acima.
Para se dizer, que existirá uma mudança significativa no quesito de significado para Heidegger, pois em Ser e Tempo , haverá da parte do filósofo um abandono do termo “vida fática”. E é então que se notará em sua Ontologia o conceito do relatado e conhecido do “ Ser-aí” (Dasein). Essa mudança significativa que o autor fará, que será desenvolvida ao longo do tempo, não brevemente, possibilitará um debruçar-se de maior importância sobre a temática do ser e de sua existência. [9]
Além disso, a facticidade é aquilo que os sujeitos estão situados, o seu local, o seu ponto de convergência, o seu contexto. Ou seja, onde estão fincados ao chão, no presente, o seu “aqui e agora”. Os sujeitos são seres situados, no mundo, no tempo, no espaço, como seres que vivem concretamente uma realidade específica. Vida fática é isso, uma realidade humana de existência concreta. [10] Pode-se dizer, o exemplo do peixe no rio, ele enquanto ser está ali dentro d'água, respirando e vivendo em seu contexto e não se dá conta disso, enquanto não for tirado se seu habitat que é o rio, dali tira seu oxigênio e sobrevive de acordo com sua natureza. Tanto os peixes, em seu habitat, quanto os seres humanos, são seres em seus respectivos contextos, não fixos, mas, sujeitos que estão sendo, parafraseando Heidegger.
Por conseguinte, note-se que, uma vida fática, é aquela que se dá na concretude do cotidiano, como experiências vívidas, é direcionada e se refere à existência humana enquanto tal. Vista, a rigor, de uma maneira profunda e ontológica do ser, ou seja, uma maneira de ser no mundo. E é como a vida fática se dará, articulando-se ontologicamente. Nesse sentido, tem-se por fático, o que vai articular-se e se desenrolar sobre si mesmo com caráter ontológico. Ontologia, hermenêutica da facticidade, isto é, vida fática, o ser-aí, ou o próprio ser, em expressão aberta e é claro, no seu ser ontológico. [11]
Sem ser redutor no sentido fático do termo, a experiência fática, não se restringe na vida com características biológicas ou naturais. Mas, para além disso, o ser aí , se compreende, se percebe e se encadeia no mundo. Heidegger também enfatiza e dá significado ao conceito de mundo na hermenêutica da facticidade, “ao mundo, podemos chamar-lhe de mundo circundante, isto é, o que sai ao encontro, aquilo do que formam parte não só coisas materiais, senão também objetos ideais , ciências, arte, etc” [12] .
3. HERMENÊUTICA
Na filosofia como um todo, o conceito de hermenêutica, se refere ao estudo de interpretação e não propriamente a interpretação em si. Isto é, a hermenêutica é uma ciência, é um campo complexo, reflexivo e técnico. Sendo ela, capaz de notar, averiguar e criticar o que se quer dizer e o que não se quer dizer, logo, o explícito e claro, e o não implícito e obscuro.
Apesar disso, existem contribuições de vários filósofos, antigos, modernos, ao longo do tempo que foram dando suas contribuições para a tradição da hermenêutica, enriquecendo-a. Tais como Aristóteles, Filón, Schleiermacher, Dilthey, o próprio Heidegger, entre outros. Existindo assim, para cada tempo e escritor, um significado próprio da hermenêutica e sua função, seja especificamente em texto, no contexto social, psicológico e da própria existência, relacionado ao cotidiano.
A hermenêutica para Heidergger, não é um modo imposto artificialmente concebido de análise que é ao ser-aí e perseguido por curiosidade. Se considerado a partir da própria facticidade, deve-se determinar quando e em que medida ela solicita a proposta de interpretação. [13] Pois, existe aí entre hermenêutica e facticidade, do qual vai ser falado mais detalhadamente à frente, uma relação do interpretado realmente, como um modo possível e claro, que se caracteriza ontologicamente. E por isso, essa relação não se dá na apreensão da objetualidade e na objetualidade apreendida. [14]
Portanto, a hermenêutica vai além, pois, ela, não tem por objetivo a posse de conhecimentos, mas um investigar e conhecer o existencial, para assim, averiguar seu impacto no cotidiano do conhecido o que se conhece e o que o rodeia, isto é, o ser-aí , o sujeito do ser . A hermenêutica se debruçará, e falará, desde o ser interpretado por ela e para o ser interpretado, existindo aqui uma relação e ligação. É assim, uma posição estabelecida e dualista de seu posicionamento, não obscura, mas, clara. [15]
Para Heidegger, “a hermenêutica não é a ciência ou conjunto de regras da interpretação textual, tão pouco uma metodologia para as ciências do espírito, mas antes, refere-se à interpretação fenomenológica da própria existência humana” (SANTOS, 2013, p. 79). ). Com isso, percebe-se que Heidegger dá um novo significado à hermenêutica e à sua utilização.
O filósofo ainda pontua a questão e relação entre a compreensão e a existência, “como é notório, só se torna evidente no homem através dele e para ele. O homem é o único ser que tem consciência da facticidade, consciência de si próprio e das coisas que o circundam” (SANTOS, 2013, p. 79). Tendo assim, o homem, consciência de sua facticidade, poderá ele, viver e ter posse de significado que permeia, e fato que lhe afeta, o seu contexto cotidiano, suas relações e implicações de sua existência no mundo.
4. HERMENÊUTICA DA FATICIDADE
Em relação à facticidade, relacionado também ao conceito de hermenêutica citado acima, a missão da referida ciência é, perceber no caráter ontológico, e dar a conhecer o ser-aí , como ele se verbaliza e de como o ser humano porta-se, presente no mundo, enquanto tal. Diante do ser-aí, chega-se a se perguntar, qual a tarefa da hermenêutica em si na facticidade? A missão da hermenêutica vem a ser, tornar acessível, o próprio ser-aí, próprio em cada ocasião, frisando seu caráter ontológico, para assim, comunicar-lo melhor e por continuidade de sua tarefa, esclarecer a alienação que contém nele mesmo, no qual o ser-aí é atingido. Diga-se de passagem, não o será como possibilidade de vir a compreender e de possivelmente, ser essa compreensão. [16]
Existe como objetivo da hermenêutica, transportar a barreira da alienação de si mesmo, do
ser-aí . E por quê? Pois a faticidade, não é um termo ou conceito isolado, ela é sim, é embricada na relação existencial do ser e está presente assim, em todas as repartições do s é aí . E assim, dar um significado, uma interpretação para ele mesmo, diferenciando-se por ter a interpretação, como o próprio ser da vida fática.
No quesito de hermenêutica fática, veja-se que Heidegger, dá a ela, com a adição de significado da existência, um valor antropológico, que se dará a interpretação a partir disso. Isto é, “esse caráter “fático” da hermenêutica está em íntima relação com o caráter “existencial” do ser-aí e é esta simbiose que permite ao homem conhecer os entes mundanos e interpretá-los” (SANTOS, 2013, p. 80 ).
Em suma, o que é resultado disso, é explicado que o conhecimento dos entes não se situa de forma superficial e em relação à interpretação dos fatos: mas o resultado, expressão da compreensão e familiaridade que o ser-aí estabelece com o mundo. Essa relação, como prevenção da angústia, torna-se visível através de uma certa familiaridade entre o homem, o mundo e os entes intramundanos” (SANTOS, 2013, p. 80).
Logo, de certa forma, essa familiaridade e relação de descoberta obtida pelo homem em relação a si mesmo e o ser-aí , será de importante relevância, pois, “na filosofia contemporânea, um amplo espaço de aplicação através do caráter antropológico da descoberta científica sobre o mundo proporcional à descoberta do homem enquanto ser capaz de descobrir-se ao descobrir o mundo” (SANTOS, 2012, p. 81). Marcando assim, uma virada significativa no conceito de funcionalidade da hermenêutica e filosofia contemporânea.
Assim sendo, “na hermenêutica da facticidade, trata-se de trazer essa compreensão primordial de fundo para a frente, fazer dela o procedimento da investigação” (GUERCHE, 2011, p. 13-14). Utilizando-a como próprio instrumento laboral , para assim, verificar o procedimento estrutural da facticidade constituinte.
REFERÊNCIAS:
HEIDEGGER, M. Fenomenologia da Vida Religiosa . Petrópolis – RJ: Vozes, 2014.
HEIDEGGER, M. Ontologia –
Hermenêutica da Facticidade . Petrópolis – RJ: Vozes, 2012.
GUERCHE, R. Hermenêutica da Facticidade e Coexistência Cotidiana com outros: Heidegger e a retórica de Aristóteles . Santa Maria – RS: UFSM, 2011.
SANTOS, Jandir Silva dos. A Hermenêutica da Facticidade no Pensamento Heideggeriano . CEUCLAR, 2013.
CRÉDITOS: Luiz Henrique Costa Ferreira. Nasceu em Rondonópolis-MT, dia 24 de março de 1999. Estudante de escola pública no decorrer de todo Ensino Fundamental e Médio. Atualmente, 2024, é seminarista da Arquidiocese de Campo Grande – MS e acadêmico da UCDB – Universidade Católica Dom Bosco, curso de Bacharelado em Filosofia.
LUIZ HENRIQUE COSTA FERREIRA – luizdiocese@gmail.com
[2] GUERCHE, Hermenêutica da Facticidade e coexistência cotidiana com os outros: Heidegger e a Retórica de Aristóteles, 2011, p. 9.
[3] HEIDEGGER, Fenomenologia da vida religiosa, 2014, p. 14.
[4] Ibidem, pág. 14).
[5] GUERCHE, Hermenêutica da Facticidade e coexistência cotidiana com os outros: Heidegger e a Retórica de Aristóteles, 2011, p. 8-9.
[6] (GUERCHE, Hermenêutica da Facticidade e coexistência cotidiana com os outros: Heidegger e a Retórica de Aristóteles, 2011, p. 6).
[7] HEIDEGGER, Fenomenologia da vida religiosa, 2014, p. 14.
[8] (HEIDEGGER, Ontologia (Hermenêutica da Facticidade), 2012, p. 13.
[9] GUERCHE, Hermenêutica da Facticidade e coexistência cotidiana com os outros: Heidegger e a Retórica de Aristóteles, 2011, p. 9.
[10 ] Ibidem, pág. 8.
[11] HEIDEGGER, Ontologia (Hermenêutica da Facticidade), 2012, P. 13-14.
[12] GUERCHE, Hermenêutica da Facticidade e coexistência cotidiana com os outros: Heidegger e a Retórica de Aristóteles, 2011, p.
[13] HEIDEGGER, Ontologia (Hermenêutica da facticidade), 2012, p. 21.
[14] Ibidem, pág. 21.
[15] HEIDEGGER, Ontologia (Hermenêutica da facticidade), 2012, p. 22.
[16] Ibidem, pág. 21.
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