FUNÇÃO HERMENÊUTICA DA LINGUAGEM

 
Introdução
A hermenêutica, enquanto teoria e prática da interpretação, possui raízes profundas na Antiguidade e no desenvolvimento das primeiras formas de compreensão e explicação dos textos sagrados e filosóficos. O termo hermenêutico origina-se do grego ἑρμηνεύειν (hermeneuein ) , que significa "interpretar", "explicar" ou "traduzir", e está diretamente ligado à figura de Hermes, o deus mensageiro, mediador e intérprete das palavras dos deuses, responsável por transmitir o conhecimento entre o mundo divino e o humano. Este vínculo com Hermes não é meramente etimológico, mas expressa a própria essência da hermenêutica: um processo de mediação, no qual o significado de um texto ou de um discurso se torna acessível e compreensível para os seres humanos, muitas vezes recorrendo à tradução ou explicação de algo oculto ou sagrado.
Na Grécia Antiga, a hermenêutica era aplicada essencialmente à interpretação de mitos, oráculos e textos religiosos. A palavra ἑρμηνεία (hermeneia), que denota a interpretação ou a explicação, refere-se à prática de desvelar os significados profundos dos discursos sagrados, muitas vezes de difícil compreensão para os humanos. Filósofos como Platão e Aristóteles já abordaram a questão da linguagem como um veículo de significados, enfatizando sua importância para a transmissão do conhecimento. Para Platão, a dialética era o método por excelência para alcançar a verdade, com uma linguagem funcionando como meio de trazer à luz as ideias puras e universais. A hermenêutica grega, portanto, está intimamente ligada à busca pela verdade e pela clareza em um mundo que, por natureza, é marcado pela opacidade das aparências.
No entanto, foi na tradição judaica e cristã da Antiguidade Tardia que a hermenêutica adquiriu uma nova importância, especialmente com a necessidade de interpretação das Escrituras Sagradas. Filon de Alexandria, por exemplo, aplicou a hermenêutica para reconciliar o texto bíblico com a filosofia grega, utilizando uma leitura alegórica para buscar significados mais profundos nos relatos sagrados. A interpretação alegórica se tornou uma ferramenta fundamental para aqueles que buscavam compreender os mistérios da fé e da revelação divina.
Na Idade Média, a hermenêutica se consolidou como uma prática central para os estudiosos das Escrituras Cristãs. Teólogos como Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino empregaram uma hermenêutica exegética, que visava extrair o sentido literal e alegórico dos textos sagrados, sempre em conformidade com a verdade revelada. Nessa tradição, a linguagem era considerada um meio de transmissão da verdade divina, e o trabalho do intérprete consiste em decifrar as camadas de significado para alcançar a essência da mensagem divina.
Dessa forma, a hermenêutica na Antiguidade e na Idade Média estava essencialmente vinculada à interpretação de textos sagrados, e a linguagem era vista como um meio de se conectar com a verdade universal e divina. A prática da interpretação buscava, inicialmente, desvendar significados ocultos e fornecer uma compreensão profunda daquilo que estava além da mera aparência ou literalidade dos textos. Com o tempo, esses conceitos e práticas hermenêuticas fundaram-se como bases para a evolução da hermenêutica filosófica moderna, que ampliaria seus horizontes, passando a compreender a linguagem não apenas como um meio de revelação o divino, mas como um campo de reflexão filosófica sobre o ser e a experiência humana.

Sumário

  1. Introdução
  • Apresentação da hermenêutica como teoria e prática da interpretação, com raízes na Antiguidade.
  • Relação etimológica da hermenêutica com o deus Hermes e seu papel como mediador entre o divino e o humano.
  • Aplicação da hermenêutica na Grécia Antiga, Judaísmo e Cristianismo medieval, especialmente na interpretação de textos sagrados.
  1. A Pré-História da Hermenêutica e a Relação com a Linguagem
  • Análise de Jean Grondin sobre a evolução da hermenêutica, destacando sua relação com a linguagem.
  • A etimologia da palavra "hermenêutica" e sua conexão com Hermes, o mediador da comunicação divina.
  • A hermenêutica na Antiguidade, com a aplicação da interpretação alegórica, especialmente em Filon de Alexandria.
  • Uma hermenêutica medieval focada na exegese das Escrituras, com teólogos como Agostinho de Hipona.
  1. A Hermenêutica Filosófica Moderna
  • Transformação da hermenêutica no século XVIII por Friedrich Schleiermacher, que a ampliou para além dos textos sagrados.
  • Introdução do conceito de Verstehen (compreensão) e a centralidade do contexto histórico e empatia no processo interpretativo.
  • Wilhelm Dilthey e a vinculação da hermenêutica às ciências humanas, com foco na experiência vívida ( Erlebnis ).
  1. A Influência de Heidegger: A Linguagem como Meio de Revelação do Ser
  • A transformação radical da hermenêutica por Heidegger, com ênfase no papel ontológico da interpretação.
  • A ideia de Dasein (ser-no-mundo) e a linguagem como o meio pelo qual o ser se revela.
  • A interpretação como um processo de desenvolvimento da realidade através da linguagem.
  • A contribuição de Hans-Georg Gadamer, com uma ideia de hermenêutica como um diálogo entre o intérprete e o texto, e o conceito de "horizontes" e "preconceitos" no processo interpretativo.
  1. Conclusão
  • A evolução da hermenêutica, desde suas origens na Antiguidade até as transformações da filosofia moderna, com ênfase na centralidade da linguagem como meio de revelação e compreensão do ser e da experiência humana.
Texto
 A Pré-História da Hermenêutica e a Relação com a Linguagem
Jean Grondin, em sua obra Introdução à Hermenêutica Filosófica , analisa a história da hermenêutica desde suas origens nas antigas tradições gregas e bíblicas até seu desenvolvimento moderno. A relação entre hermenêutica e linguagem é central para compreender como a filosofia da interpretação foi se expandir ao longo dos séculos. Muitos dos conceitos-chave dessa transformação têm raízes em palavras gregas que refletem a importância da linguagem no processo interpretativo. A etimologia desses termos nos permite entender melhor as suas conotações filosóficas e a maneira como elas evoluíram na história da hermenêutica.
A palavra hermenêutica tem origem no grego ἑρμηνεύειν (hermeneuein), que significa "interpretar", “explicar” ou “traduzir”. Ela está intimamente ligada ao nome do deus grego Ἑρμῆς (Hermes), o mensageiro dos deuses e o deus da comunicação, das interpretações e da tradução. Hermes foi considerado o mediador entre o mundo divino e o humano, facilitando a comunicação e a transmissão do conhecimento.
A etimologia da hermênia (hermenêutica) sugere que a interpretação sempre foi associada ao ato de mediação, o que implica uma transformação daquilo que está oculto ou em um nível mais profundo (como a vontade divina ou o conhecimento profundo) para algo acessível e compreensível ao ser humano. Nesse sentido, a linguagem, como veículo de interpretação, também se torna um meio fundamental para que os significados se revelem.
Na Antiguidade e na Idade Média, a hermenêutica foi aplicada essencialmente à interpretação de textos sagrados. Por exemplo, o filósofo judeu helenístico Filon de Alexandria (c. 20 aC – 50 dC) utiliza a hermenêutica para reconciliar as Escrituras Judaicas com a filosofia grega, indicando que a interpretação correta ir além da leitura literal, buscando significados mais profundos e alegóricos. O termo grego ἀλληγορία (alegoria), que significa "dizer algo de outra forma" ou "representar de maneira simbólica", reflete esse movimento em que o sentido literal é interpretado à luz de significados mais profundos.
No Cristianismo medieval, o foco da hermenêutica se deslocou para a interpretação das Escrituras Sagradas. Aqui, os teólogos cristãos, como Agostinho de Hipona (354–430 dC), basearam suas interpretações no princípio da "verdade revelada", com o objetivo de compreender a Volontas Dei (Vontade Divina), algo que transcendia a razão humana e estava inscrito nas Escrituras. O conceito de exegese (do grego ἐξήγησις, exegesis, que significa "explicação", "interpretação") foi amplamente utilizado para designar a interpretação detalhada dos textos sagrados.
No século XVIII, Friedrich Schleiermacher (1768–1834) inicia uma revolução no campo da hermenêutica, quando a disciplina começa a ser vista como uma metodologia filosófica em um sentido mais amplo. Para ele, a hermenêutica não era mais apenas uma técnica de interpretação de textos sagrados, mas uma arte de compreensão das expressões humanas. Schleiermacher faz uso do termo Verstehen (do alemão verstehen, "compreender"), que se refere à capacidade de penetrar no sentido profundo de um texto, considerando o autor, o contexto histórico e a intenção do discurso. Ele promove uma mudança no entendimento da linguagem, colocando a experiência subjetiva do intérprete no centro do processo interpretativo.
O termo Verstehen tem raízes no verbo alemão verstehen, mas também pode ser associado ao grego σύννοια (synnoia), que significa "compreensão" ou "entendimento", ou seja, um processo de juntar elementos dispersos em um todo significativo. Para Schleiermacher, a interpretação é um processo de "reconstrução" do pensamento do autor na mente do intérprete, utilizando não apenas o contexto histórico, mas também um tipo de empatia com o autor. Esse foco na subjetividade do intérprete e na linguagem como meio de acesso ao pensamento do autor molda a hermenêutica como uma filosofia de compreensão intersubjetiva.
Wilhelm Dilthey (1833–1911) leva a hermenêutica um passo adiante ao associar à compreensão das ciências humanas. Dilthey introduz o conceito de Geisteswissenschaften (ciências do espírito), que se distingue das ciências naturais porque, enquanto aqueles buscam compreender o espírito humano e suas manifestações culturais (como arte, história e literatura), as ciências naturais lidam com os materiais da natureza . A linguagem se torna, assim, a ponte entre o espírito e a realidade objetiva. A hermenêutica, para Dilthey, é a chave para as ciências humanas, pois é por meio da interpretação de textos, relatos históricos e outras orientações culturais que conseguimos acessar a experiência vívida (Erlebnis), que está na base da ação humana e da criação de significados.
3. A Influência de Heidegger: A Linguagem como Meio de Revelação do Ser
A hermenêutica moderna é radicalmente transformada por Martin Heidegger (1889–1976), que faz da interpretação uma questão ontológica e não apenas epistemológica. Heidegger argumenta que a compreensão não é apenas um ato mental de entender um texto, mas sim uma parte fundamental de nossa própria existência. Ele utiliza o termo grego ἐρμηνεία (hermeneia), que remete à interpretação, mas também sugere algo mais profundo: o desvelamento do ser. O Dasein (do alemão "da-sein", "ser-aí") é, para Heidegger, o ser humano enquanto ser no mundo, e interpretar é um modo de estar-no-mundo, sendo inseparável da própria experiência de ser.
No vocabulário de Heidegger, a linguagem é vista não como um simples instrumento para expressar ideias, mas como o meio pelo qual o ser se revela. A palavra grega λόγος (logos), que significa "palavra", "discurso" ou "razão", é central para essa compreensão. Para Heidegger, o logos não se refere apenas à razão ou à linguagem discursiva, mas ao processo pelo qual o ser se revela e se compreende.
A frase de Heidegger “A linguagem é a casa do ser” é uma afirmação radical sobre a centralidade da linguagem no nosso ser-no-mundo. A interpretação, nesse contexto, não é uma busca por um significado oculto, mas um processo de desenvolvimento da realidade, que ocorre através da linguagem. A linguagem não é apenas o meio pelo qual comunicamos ideias, mas o próprio lugar onde a verdade se manifesta.
Hans-Georg Gadamer (1900–2002) amplia o pensamento de Heidegger ao sugerir que a hermenêutica é essencialmente um diálogo entre o intérprete e o texto, onde ambos os "horizontes" — o do intérprete e o do autor — se encontram. Gadamer utiliza o termo Horizont (do alemão "Horizont"), que se refere à perspectiva ou campo de visão de alguém, enfatizando que a compreensão não é uma transmissão exata do significado do autor, mas um processo de intercâmbio de perspectivas, em que o o próprio intérprete é transformado.
Gadamer também recupera o conceito grego de preconceito (προκατάληψις, prokatalepsis), que, para ele, não é algo negativo, mas sim uma condição necessária para a compreensão. O preconceito, no contexto de Gadamer, é uma pré-compreensão que o intérprete traz para o processo interpretativo, e que permite que ele se envolva com o texto. A linguagem, portanto, não é apenas um meio de comunicação, mas o espaço onde esses preconceitos podem ser confrontados e refinados, permitindo que a verdade emergir de maneira mais plena.
A pré-história da hermenêutica, marcada por filósofos e teólogos da Antiguidade e da Idade Média, até a transformação da hermenêutica moderna com Schleiermacher, Dilthey, Heidegger e Gadamer, revela como a linguagem estava se tornando o ponto central da interpretação filosófica. Desde a função mediadora de Hermes, o deus da comunicação, até a concepção contemporânea de dialogicidade e desenvolvimento do ser, a linguagem é vista como o veículo essencial através do qual o significado é revelado, compreendido e transformado.
Notas de roda pé
Referências
Grondin, Jean
Introdução à hermenêutica filosófica / Jean Grondin; tradução de Benno Dischinger. - São Leopoldo: Ed. UNISINOS, 1999. 336p. - (Coleção Focus)
Biografias/créditos
Matheus Henrique, nascido em Piranhas – GO, no ano de 1999, Técnico em eletroeletrônica pela Unidade Integrada SESI-SENAI de Rio Verde - GO. Actualmente membro da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos da Igreja Católica Apostólica Romana. Cursando bacharelado em Filosofia pela Universidade Católica Dom Bosco – UCDB de Campo Grande – MS.    
Nome e Gmail
Matheus Henrique de Oliveira Moraes
Matheusfradescapuchinhos@gmail.com


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