O MÉTODO HERMENÊUTICO DE SCHLEIERMACHER

 

A hermenêutica, ciência da interpretação de textos, tem sido estudada e abordada por diversos filósofos ao longo dos séculos. No entanto, é com Friedrich Schleiermacher que se dá uma importante reinterpretação desse campo, destacando sua relevância para a compreensão dos discursos humanos. “Schleiermacher tecnologia conceitos fundamentais que influenciaram profundamente as práticas interpretativas, ampliando o escopo da hermenêutica de uma simples decodificação de palavras para um processo mais complexo e empático” [1] .

Schleiermacher acreditava que a compreensão de um texto não se limitava à decodificação literal das palavras, mas envolvia um esforço mais profundo de conexão com o interesse do autor. Sua teoria propunha uma hermenêutica mais flexível e dinâmica, voltada para a compreensão não apenas do significado superficial, mas também do contexto emocional, histórico e psicológico envolvido na criação do texto.

A proposta de Schleiermacher alterou profundamente a maneira como se entende a interação entre o leitor e o texto, introduzindo o conceito de círculo hermenêutico, onde a compreensão do todo e das partes se desenvolve simultaneamente e se retroalimentam. Esse conceito, junto com a divisão entre os aspectos gramaticais e psicológicos, oferece uma visão mais holística da interpretação, enfatizando que, para entender verdadeiramente um texto, é necessário ir além da análise das palavras e examinar também o contexto psicológico do autor.

Por meio desse verbete, busca-se explorar a proposta hermenêutica de Schleiermacher, destacando suas principais contribuições e mostrando como suas ideias podem ser aplicadas não apenas à filosofia, mas também a diferentes áreas do conhecimento que envolvem a interpretação de textos e discursos. A hermenêutica de Schleiermacher não se limita a ser um conjunto de regras, mas constitui um convite à compreensão profunda e empática dos textos e dos contextos que os envolvem.

 SUMÁRIO

1. A ARTE DA COMPREENSÃO

2. DIVISÃO EM PARTES GRAMATICAL E PSICOLÓGICA

3. O CÍRCULO HERMENÊUTICO

4. OS MÉTODOS DIVINATÓRIO E COMPARATIVO

5. CONCLUSÃO

6. REFERÊNCIAS BIOGRÁFICAS

1. A Arte da Compreensão

Friedrich Schleiermacher elevou a hermenêutica ao status de uma "arte da compreensão" [2] . Para ele, a interpretação não é apenas um processo técnico, mas uma atividade que requer intuição e habilidade. Segundo Schmidt, “o mal-entendido é um resultado costumeiro” [3] em qualquer ato de comunicação, o que torna a interpretação essencial em todas as situações.

Schleiermacher argumenta que a hermenêutica é necessária para ir além das aparências das palavras. Ferraris reforça essa ideia ao afirmar que Schleiermacher “viu a compreensão como um processo universal que exige atenção aos detalhes e um esforço ativo para evitar equívocos” [4] . Assim, a compreensão vai além do simples decifrar.

O autor também sugeriu que a interpretação deve alcançar um nível em que o leitor entenda o texto tão bem ou até melhor do que o próprio autor. Isso significa revelar não apenas o que foi dito deliberadamente, mas também o que pode estar implícito ou inconsciente no texto [5] .

Por fim, essa “arte da compreensão” [6] requer um equilíbrio entre regras e criatividade. Como afirma Schleiermacher, "a interpretação deve expor de forma científica e adequada a profundidade do processo interpretativo" [7] . Esse equilíbrio é essencial para qualquer interpretação verdadeira.

A hermenêutica, ou ciência da interpretação, tem duas abordagens principais, segundo Schleiermacher: a hermenêutica láxica e a hermenêutica rigorosa. Ambas lidam com como entendemos textos ou discursos, mas de formas diferentes.

A hermenêutica láxica entende a interpretação como algo que acontece de forma natural e intuitiva. Para Schleiermacher, parte da ideia de que “a compreensão se dá por si mesma e características expressas o objetivo de evitar mal-entendidos”. [8] Isso quer dizer que, em muitos casos, as pessoas conseguem interpretar corretamente sem dificuldades. Quando há problemas, a compreensão é interrompida. Schleiermacher também aponta que “a visão tradicional da hermenêutica era de que entendemos tudo de forma correta e clara, até encontrarmos uma contradição”. [9] Nesse caso, a hermenêutica só é necessária para resolver situações específicas em que não conseguimos entender o que está sendo aqui. Como ele afirma, "uma hermenêutica só se faz necessária quando não (mais) se entende." [10] A compreensão, portanto, é vista como algo natural, e a hermenêutica é usada apenas quando há confusão ou mal-entendido.

Por outro lado, a hermenêutica rigorosa de Schleiermacher vê o mal-entendido como algo deliberado e algo que deve ser enfrentado desde o início da interpretação. Para ele, "o mal-entendido se dá por si mesmo e a compreensão deve ser buscada ativamente em cada ponto." [11] A interpretação não pode ser algo automático, mas exige esforço consciente. A hermenêutica rigorosa vê a compreensão como um processo contínuo e sistemático. Como ele afirma, "a hermenêutica não deve começar apenas onde há insegurança, mas desde o início do desejo de entender um discurso." [12] Isso reflete o esforço de garantir uma interpretação precisa e sem falhas. Outro ponto importante é que a hermeneuta deve sempre ser preparada para evitar erros. Como diz Schleiermacher, "a hermeneuta se previne desde o início do processo de compreensão contra um possível erro." [13] Por fim, essa abordagem exige atenção constante, pois a compreensão deve ser feita de maneira meticulosa e cuidadosa. “A compreensão deve proceder de maneira controlada e consciente” [14] , conclui Schleiermacher, destacando que interpretar é uma prática que exige método e disciplina.

2. Divisão em Partes Gramáticas e Psicológicas

Friedrich Schleiermacher, um dos principais pensadores da hermenêutica moderna, propõe que a interpretação de textos deve ser dividida em duas partes principais: a gramatical e a psicológica. A interpretação gramatical foca na linguagem usada pelo autor, como as palavras, frases e a estrutura do texto. Segundo Schmidt, ela "lida com a compreensão da linguagem do autor" [15] . Isso significa entender o significado das palavras e frases dentro do contexto histórico e cultural da época em que o texto foi escrito. A interpretação gramatical ajuda a compreender o que o autor quis dizer, levando em conta como a língua era usada naquela época. Schleiermacher também explica: "A parte da hermenêutica, que se ocupa com este aspecto, será chamada por Schleiermacher 'o lado gramatical' da interpretação. A ele compete explicar uma determinada expressão do contexto global da totalidade linguística em questão" [16] .

A interpretação psicológica, por outro lado, vai além das palavras e busca entender o pensamento e o interesse do autor. Ela tentou descobrir o que motivou o autor a escrever de determinada forma e o que ele queria expressar com suas ideias. Ferraris afirma que essa abordagem tenta "intuir o espírito do autor" [17] e entender como ele expressou suas ideias. Schleiermacher descreve essa parte da hermenêutica, dizendo: "A interpretação técnica [...] é a da interpretação 'psicológica'. Técnica significa aqui, comprovada, que o intérprete procura entender a arte específica que um autor externo ou num de seus textos. Aqui é evidentemente ultrapassada a visão meramente sintática da linguagem, em direção ao que a linguagem quer realmente expressar . . Em resumo, a interpretação psicológica não se limita a analisar as palavras, mas busca entender o que deseja e os sentimentos que estão por trás delas.

Essas duas abordagens são complementares. A interpretação gramatical oferece bases para compreender o texto de forma objetiva, enquanto a interpretação psicológica ajuda a entender o lado mais subjetivo e profundo do autor. Como afirma Schmidt, "a interpretação gramatical fornece os fundamentos para compreender o texto, enquanto a psicológica se aprofunda-se no sentido mais subjetivo" [19] . Schleiermacher também diz que ambas as abordagens são indispensáveis ​​para alcançar uma interpretação completa. Ele propõe que a análise da forma e do conteúdo não possa ser separada da tentativa de entender o contexto e como pretende o autor. Como ele afirma: "A interpretação envolve a compreensão do discurso partindo da totalidade da língua e como um ato da produção contínua de ideias" [20] .

Ao combinar essas duas abordagens — a gramatical e a psicológica — o intérprete consegue entender o texto de maneira mais completa. Para Schleiermacher, compreender "a linguagem realmente expressa" [21] é essencial, e essa compreensão deve ser tanto técnica quanto emocional, envolvendo tanto a linguagem objetiva quanto as objetivas subjetivas do autor. Ao juntar essas duas formas de análise, o intérprete consegue entender o texto de maneira mais profunda e perceber aspectos que o próprio autor talvez não tenha notado em sua obra. Como Schleiermacher diz: "O objetivo é compreender um autor melhor do que ele de si mesmo pode dar conta" [22] . Dessa forma, a hermenêutica de Schleiermacher permite que as interpretações sejam mais completas e profundas.

3. O Círculo Hermenêutico

Um dos conceitos centrais na hermenêutica de Schleiermacher é o círculo hermenêutico, que enfatiza a relação dialética entre o todo e as partes na interpretação de um texto. Segundo ele, "o conhecimento completo está sempre neste círculo aparente, onde cada particular só pode ser compreendido através do geral do que faz parte, e vice-versa" [23] . Esse princípio sugere que a compreensão de uma parte de um texto depende necessariamente da compreensão do todo, enquanto a interpretação do todo está condicionada à análise de suas partes constituintes. Tal abordagem revela a complexidade e a interdependência essenciais para o processo interpretativo.

Ferraris, ao comentar a hermenêutica de Schleiermacher, descreve esse movimento circular como uma condição necessária à compreensão, e não como um obstáculo. Ele destaca que "a compreensão de uma parte só é possível a partir de todo e o todo é compreendido por meio de suas partes" [24] . Para Ferraris, o círculo hermenêutico não configura uma falha, mas uma característica fundamental da própria dinâmica interpretativa. Ele afirma que "essa circularidade, longe de ser um defeito, é o que orienta o processo de construção de sentido, criando uma relação entre os elementos particulares e a totalidade do texto" [25] . Essa visão ressalta a importância do diálogo constante entre o geral e o particular no processo interpretativo.

No contexto da hermenêutica de Schleiermacher, uma leitura inicial do texto como um todo pode ser uma estratégia eficaz para romper com o ciclo aparente do círculo hermenêutico, permitindo que o interprete se aproxime das partes com uma perspectiva mais clara e integrada. Como afirma Schleiermacher, "uma compreensão plena só se dá por meio da interação entre o geral e o particular" [26] . Esse processo interpretativo não é uma limitação, mas uma ferramenta que favorece o esclarecimento dos significados, uma vez que a compreensão de cada parte se dá em estreita relação com o conjunto total do texto. Assim, o círculo hermenêutico se revela como um elemento fundamental na prática da interpretação textual.

4. Os Métodos Divinatórios e Comparativos

Schleiermacher apresenta dois métodos principais para a interpretação: o divinatório e o comparativo. O método divinatório exige que o intérprete "se transforme em outra pessoa e tente compreender o elemento individual diretamente" [27] . Esse método é baseado na intuição e na empatia.

Por outro lado, o método comparativo busca compreender a obra ao analisar em relação a outras produções do mesmo autor ou de seu contexto histórico. Ferraris explica que "a compreensão se dá por meio de análise com outras obras" [28] , permitindo identificar elementos únicos e gerais.

Embora pareçam opostos, os métodos divinatórios e comparativos se complementam. Schleiermacher argumenta que "ambos os métodos possuem uma funcionalidade mútua" [29] . Enquanto um se aprofunda no indivíduo, o outro amplia a perspectiva ao situar o texto em um contexto mais amplo.

Esses métodos, quando usados ​​em conjunto, enriquecem a interpretação. Eles possibilitam ao intérprete alcançar um nível de compreensão que revela tanto as preocupações conscientes quanto os elementos inconscientes do autor.

5. CONCLUSÃO

A proposta hermenêutica de Friedrich Schleiermacher representa uma abordagem profunda e detalhada para a interpretação de textos, elevando o processo de compreensão à categoria de uma arte. Ao destacar a necessidade de uma interpretação cuidadosa e sensível, Schleiermacher nos ensina que a verdadeira compreensão vai além de simplesmente decifrar palavras; ela exige uma análise no pensamento e nas interesses do autor. O processo interpretativo, portanto, não é apenas técnico, mas envolve um esforço contínuo de intuição e empatia.

O conceito de divisão entre interpretação gramatical e psicológica oferece uma estrutura eficaz para entender os textos. A interpretação gramatical nos ajuda a decifrar a linguagem e as construções literárias, enquanto a interpretação psicológica nos permite penetrar no espírito do autor e compreender seus pensamentos mais profundos. Dessa forma, a hermenêutica de Schleiermacher se torna um exercício de análise específica e de sensibilidade ao contexto histórico e emocional que envolve a criação do texto.

A ideia do círculo hermenêutico, por sua vez, reflete uma dinâmica de compreensão que nunca é linear. Ao compreender um todo, já se entra em contato com as partes, e ao interpretar as partes, voltamos ao todo. Esse movimento contínuo entre as partes e o todo permite uma compreensão mais profunda e completa da obra, pois cada elemento do texto só pode ser realmente entendido à luz do contexto maior em que está inserido.

Por fim, os métodos divinatórios e comparativos, embora aparentemente opostos, são complementares à hermenêutica de Schleiermacher. O método divinatório nos exige uma atitude de estudo no pensamento do autor, quase como se tentássemos adivinhar seus interesses mais sutis. Já o método comparativo amplia nossa visão ao analisar o texto em relação a outros, ajudando a destacar a singularidade de cada obra. Juntos, esses métodos nos oferecem uma ferramenta poderosa para alcançar uma interpretação rica e completa, permitindo-nos compreender o texto de forma cada vez mais aprofundada.

REFERÊNCIAS:

Ø  SCHMIDT, Lawrence K. Hermenêutica . Tradução de Fábio Ribeiro. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

Ø  FERRARIS, M. História da Hermenêutica (A. Perea Cortés, Trad.). Século XXI Editores, 2002.

Ø  SCHLEIERMACHER, Friedrich DE Hermenêutica: arte e técnica de interpretação . Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

Ø  HAUBERT, Laura Elizia; PRELLWITZ, Klaus Penna. Apontamentos sobre a hermenêutica de Friedrich Schleiermacher . ConTextura , Belo Horizonte, n. 13, pág. 39-48, dez. 2018. Disponível em: . Acesso em: 26 nov. 2024.

Ø  GRONDIN, Jean. Introdução à Hermenêutica Filosófica . Tradução de Teixeira, Eduardo. 4.ed. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2008.

 

AGRADECIMENTOS:

Eu sou Evandro Lucas da Silva Barros, natural da cidade de Salinópolis, no estado do Pará. Filho de mãe professora e pai pescador, tenho orgulho de minhas raízes humildes, que me ensinam todos os dias o valor do trabalho e da dedicação.

Atualmente sou salesiano de Dom Bosco e estou cursando o 4º semestre de Filosofia na Universidade Católica Dom Bosco. Minha jornada é pautada pela busca constante de crescimento pessoal, acadêmico e espiritual. Ao longo dos anos, tenho-me empenhado em compreender a educação como um ato de libertação, inspirada nas ideias de Paulo Freire, para contribuir na formação de uma consciência crítica e transformadora.

Minha caminhada é uma busca contínua por servir aos outros e fazer a diferença na comunidade em que estou inserido. Acredito que a educação é um dos principais instrumentos para a mudança e me dedico, todos os dias, a viver minha vocação de forma profunda e verdadeira.



[1] Laura Elizia Haubert e Klaus Penna Prellwitz,Apontamentos sobre a hermenêutica de Friedrich Schleiermacher, 2018, p. 39.

[2] Schleiermacher, Arte e Técnica da Interpretação, 1999, p.106.

[3] Schmidt, Hermenêutica, 2012, p. 23.

[4] Ferraris, História da Hermenêutica, 2002, p. 105.

[5] Ferraris, História da Hermenêutica, 2002, p. 109.

[6] Schleiermacher, Arte e Técnica da Interpretação, 1999, p.106

[7] Schleiermacher, Arte e Técnica da Interpretação, 1999, p.106

[8] Grondin, Introdução à Hermenêutica Filosófica, 2008, p.119

[9] Grondin, Introdução à Hermenêutica Filosófica, 2008, p.121

[10] Grondin, Introdução à Hermenêutica Filosófica, 2008, p.123

[11] Grondin, Introdução à Hermenêutica Filosófica, 2008, p.124

[12] Grondin, Introdução à Hermenêutica Filosófica, 2008, p.126

[13] Grondin, Introdução à Hermenêutica Filosófica, 2008, p.126

[14] Grondin, Introdução à Hermenêutica Filosófica, 2008, p.128

[15] Schmidt, Hermenêutica, 2012, p.8

[16] Grondin,Introdução à Hermenêutica Filosófica, 2008, p.136

[17] Ferraris, História da Hermenêutica, 2002, p.106

[18] Grondin, Introdução à Hermenêutica Filosófica, 2008, p.130

[19] Schmidt, Hermenêutica, 2012, p.15

[20] Schleiermacher, Arte e Técnica da Interpretação, 1999, p.42

[21] Grondin,Introdução à Hermenêutica Filosófica, 2008, p.131

[22] Schleiermacher, Arte e Técnica da Interpretação, 1999, p.43

[23] Schmidt, Hermenêutica, 2012, p. 24

[24] Ferraris, História da Hermenêutica, 2002, p. 107

[25] Ferraris, História da Hermenêutica, 2002, p. 108

[26] Schleiermacher, Arte e Técnica da Interpretação, 1999, p. 120

[27] Schmidt, Hermenêutica, 2012, p. 92

[28] Ferraris, História da Hermenêutica, 2002, p. 108

[29] Schleiermacher, Arte e Técnica da Interpretação, 1999, p.108

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