CÍRCULO HERMENÊUTICO – DA COMPREENSÃO ONTOLÓGICA DE HEIDEGGER AO AMBIENTE LINGUÍSTICO DE GADAMER
Introdução
O conceito de círculo hermenêutico na filosofia de Martin Heidegger e de Hans-Georg Gadamer, será desenvolvido neste verbete. A compreensão hermenêutica, segundo Gadamer, não é apenas um processo de interpretação textual, mas um diálogo contínuo entre o intérprete e o texto, onde ambos são transformados. [1]Heidegger dinâmica a noção de "ser-no-mundo" (In-der-Welt-sein), enfatizando que a compreensão é um processo circular.
Para ele, compreender algo envolve um movimento constante de auto interpretação, influenciado pelas experiências anteriores. Essa abordagem revela como a compreensão ontológica do ser é um processo sonoro e contínuo, onde o ente humano está sempre em relação com o mundo ao seu redor. Heidegger mostra que a existência humana é atravessada por uma preocupação prática com o mundo, onde os objetos e as pessoas são percebidos em termos de sua utilidade e relevância em suas atividades cotidianas. [2]
Gadamer, por sua vez, amplia essa ideia ao introduzir a noção de pré-história da compreensão e interpretação. Ele atribui à teologia e à filologia um papel fundamental na formação da hermenêutica, destacando como esses campos desenvolvidos para a redescoberta de textos clássicos e religiosos. Gadamer elogia Wilhelm Dilthey por abrir caminhos para uma compreensão teológica que se desprende do dogma, promovendo uma interpretação mais histórica e contextual dos textos. Para Gadamer, a compreensão de um texto envolve não apenas a interpretação literal, mas também a consideração de seu contexto histórico e cultural. [3]
A teoria de Gadamer sobre o círculo hermenêutico enfatiza a relação entre o todo e as partes de um texto. Ele argumenta que a compreensão de todo guia é a interpretação das partes individuais e vice-versa. Essa relação circular é essencial para uma interpretação profunda e significativa, onde o intérprete deve estar aberto a novas perspectivas e reinterpretações. Gadamer utiliza exemplos bíblicos para ilustrar sua teoria, mostrando como a compreensão de um texto sagrado envolve tanto a interpretação gramatical quanto a histórica. Assim, ele propõe uma hermenêutica que se liberta das amarras do dogma e se abre para uma compreensão mais ampla e inclusiva da realidade histórica.
SUMÁRIO:
2 - Heidegger e a compreensão do ser _____________________________ 3
3 - Gadamer e a Expansão do Círculo Hermenêutica ___________________4
4 - Conclusão __________________________________________________7
6 – Referência _________________________________________________ 8
2 - Heidegger e a compreensão do ser
Heidegger explica que a compreensão ontológica é um processo circular, não linear. Isso significa que entendemos algo que envolve um caminho contínuo, sempre atravessado pelas experiências anteriores. A ideia é que você esteja constantemente auto interpretando junto ao mundo. Para ele, essa maneira circular de entender a existência é importante porque revelar como acontece a compreensão ontológica do ser.
Heidegger introduz o conceito de "ser-no-mundo" ( In-der-Welt-sein ), descrevendo como os seres humanos estão sempre envolvidos em um contexto de significados e relações
“O ser-aí é o que é a cada vez, sem um começo e um fim, portanto o ser-aí enquanto ser-no-mundo é sempre sua abertura, da qual não [se] pode escapar” [4] . Há uma variedade de modos de abertura do ser-no-mundo. O que é importante ressaltar é a unidade que há entre tais modos, o que faz com que o ser-aí não seja substancializado.” [5]
O filósofo enfatiza que a existência humana é descrita por uma preocupação prática com o mundo, onde os objetos e as pessoas são percebidos em termos de sua utilidade e relevância para nossas atividades cotidianas. O “ser-em” (In-Sein) é fundamental para entender a existência humana (Dasein). Heidegger argumenta que o ser humano não é um sujeito isolado, mas está sempre em relação com o mundo ao seu redor.
O modo de ser-em do Dasein “ nesta dinâmica em que o Dasein se apropria de compreensões disponíveis sobre o seu ser está encerrada uma possibilidade autêntica de ser impessoalmente si mesmo” [6] tem sua compreensão ontológica pela caracterização dos processos de compreensão dele no lugar que se encontra e pela formulação em que ele se apresenta.
A visão prévia dessa estrutura do ser-em como tal “visa evitar qualquer fragmentação e disseminação da uniformidade das deficiências” [7] . Para evitar essa fragmentação, o ser-no-mundo deve ser compreendido com uma perspectiva oto-fenomenológico-hermenêutica para que a visão dele seja mais integral e possa caminhar evolutivamente para o “ser originário da própria presença, isto é, da cura [ Sorge ]” [8] .
O ser-em como uma caracterização ontológica “não é propriedade de um sujeito simplesmente dado” [9] , mas é caracterizado “como um modo de ser essencial do próprio sujeito” [10] . O ente deve ter uma orientação, mas essa orientação pode causar uma indeterminação ontológica. O Dasein está marcado por essa indeterminação, já que ele é responsável por sua condição de ser-em-si-mesmo.
Heidegger foca na compreensão ontológica do ser como um processo contínuo de auto interpretação. Gadamer expande essa ideia ao introduzir uma pré-história da compreensão e interpretação, atribuindo à teologia e à filologia um papel fundamental na hermenêutica. Ele utiliza Wilhelm Dilthey que utiliza uma interpretação histórica e contextual dos textos, afastando-se do dogma.
3 - Gadamer e a Expansão do Círculo Hermenêutica
Hans-Georg Gadamer, em Verdade e Método, discorda sobre seu conceito de pré-história da compreensão e da interpretação. O autor atribui a teologia e a filologia esse papel pré-histórico, mas ligando-os por meio da hermenêutica.
Segundo Gadamer, a hermenêutica tem como objetivo restabelecer o entendimento que foi alterado ou que está ausente. O círculo hermenêutico, portanto, não possui uma natureza formal. Ele não é nem objetivo nem subjetivo, mas descreve a compreensão como a interpretação do movimento da tradição e do intérprete. A antecipação de sentido, que orienta a compreensão de um texto, não é um ato puramente subjetivo, pois é determinada pela comunhão que se tem com a tradição.
Gadamer utiliza de Dilthey e a elogia para abrir esse caminho de compreensão teológica, partindo da reforma protestante e da defesa dos reformistas contra os ataques dos teólogos tridentinos (tradição). Na Filologia a hermenêutica surge como “uma tentativa humanística de redescobrir a literatura clássica” [11]
Assim ele introduz a sua teoria da redescoberta, tanto na teologia quanto na filologia, falando de um “redescobrimento de algo que não é totalmente desconhecido” [12] . Gadamer discorre em seu texto, trazendo alguns exemplos para melhor compreensão de suas ideias, usando assim a bíblia para contextualizar sua teoria, usando Dilthey como base de reflexão.
“Naturalmente, o sentido literal da Escritura não se entende unicamente em todas as suas passagens nem a todo momento. Pois, é o conjunto da Escritura Sagrada o que guia a compreensão do indivíduo da mesma forma que, ao inverso, este conjunto só pode ser compreendido quando se fez a compreensão do indivíduo. Esta relação circular do todo e das partes não é, em si, nenhuma novidade. A retórica antiga já sabia disso, ela que comparava o discurso perfeito com o corpo orgânico com a relação entre a cabeça e os membros.” [13]
Gadamer, ainda se utilizando de Dilthey, busca explicar que a compreensão do texto não poderia de dar apenas por dogma, o texto ao pé da letra, assim ele continua utilizando a bíblia para defender sua tese. O filósofo argumenta que a compreensão circular de um texto, ou seja, da compreensão que envolve o seu contexto, ao que ele se propõe a comunicar, mostra que apenas compreender o indivíduo já não é um princípio interpretativo suficiente, mas é preciso “dirigir- se a abrangência conjuntural da realidade histórica”. [14]
“Essa 'liberação da interpretação do dogma' (Dilthey), a reunião das Escrituras Sagradas da cristandade assume o papel de reunir fontes históricas que, na qualidade de obras escritas, têm de se submeter a uma interpretação não somente gramatical, mas também histórica” (Gadamer, Verdade e Método, 1999, p.277/278)
a ideia do Aufklàrung (compreensão, iluminação) que é abordada por Dilthey, como compreensão, abordagem que historicamente teria que adquirir um contexto diferente, a hermenêutica deveria desprezar-se do caráter dogmático e abrir-se para uma compreensão circular da história, dos acontecimentos e das formas como ela foi descoberta e adquirida para si um caráter de círculo hermenêutico, que é capaz de se abrir para uma compreensão mais completa e não apenas dogmática. [15]
Essa proposta de mudança, não seria apenas o desdobramento de um modo de interpretação, mas ela realmente queria “uma virada em direção à consciência histórica já não seria sua liberação das presilhas do dogma, mas uma mudança de sua essência”. [16]
O modelo apresentado pela modernidade clássica já não era capaz de se promover frente ao argumento utilizado por Dilthey. A hermenêutica filológica deveria se transformar, pois a relação entre antiguidade e o presente já não é vista como uma relação inequívoca, assim a hermenêutica filológica deveria alterar a sua essência.
Gadamer emerge da tradição expressiva da linguagem, e ele não adere à opinião de que a linguagem é apenas um meio de transmissão do aparelho cognitivo, como se existisse uma lacuna entre as palavras e aquilo que elas representam. A exclusão da teoria do signo é essencial no projeto Gadameriano, que assinala a nossa participação na linguagem. Gadamer critica a ideia de que a linguagem funciona como instrumento de subjetividade separada da coisa pensada. [17]
Gadamer considera que a linguagem pertence a um “ambiente linguístico”, e não ao homem. Esse, por sua vez, toma para si esse ambiente, pois ele entende que tradicionalmente possui a posse, por herança, dessa forma de comunicação. O Filósofo considera que a conotação de um signo linguístico é uma forma equivocada de tratar a apreensão do conceito.
A teoria de Gadamer sobre o círculo hermenêutico enfatiza a relação entre o todo e as partes de um texto, onde a compreensão do todo orienta a interpretação das partes individuais e vice-versa. Essa relação circular é essencial para uma interpretação profunda e significativa, onde o intérprete deve estar aberto a novas perspectivas e reinterpretações. [18]
O círculo hermenêutico gadameriano é um processo de confronto entre o autor e o texto, onde o primeiro, se lança no texto, enquanto o texto reage por meio de seu ambiente linguístico, devolvendo ao leitor seus pontos de convergência e divergência, somente a experiência do choque com um texto - seja porque ele não oferece nenhum sentido, seja porque seu sentido não concorda com nossas expectativas.
O que nos faz parar e perceber um possível ser-diverso do uso da linguagem. “Quem procura compreender está exposto a erros de opiniões prévias, as quais não se confirmam nas próprias coisas” [19] . Essa forma de comunicação entre eles é o círculo hermenêutico de Gadamer.
Para ele, os signos podem ser manipulados e ser atribuídos de outro significado, e assim ele argumenta que o “significado reside na própria palavra, pois ela é sempre significativa” [20], Gadamer considera que deve haver uma confluência, pois a tradição é transmitir pela linguagem, e o lugar do circulo hermenêutico é fazer a fusão, já que ela se adentra aos horizontes do interprete e da tradição por herança.
4 - Conclusão
A análise do círculo hermenêutico, conforme interpretada por Heidegger e Gadamer, revela a profundidade e complexidade da compreensão. Heidegger introduz a noção de "ser-no-mundo" ( In-der-Welt-sein ), destacando a natureza circular da compreensão ontológica, onde a auto compreensão é um processo contínuo e dinâmico, sempre influenciado pelas experiências anteriores. Ele enfatiza que a existência humana é descrita por uma relação prática e significativa com o mundo, onde os objetos e as pessoas são percebidos em termos de sua utilidade e relevância e significado.
Gadamer, por sua vez, expande essa ideia ao incorporar uma pré-história da compreensão e da interpretação, atribuindo um papel fundamental à teologia e à filologia na formação da hermenêutica. Ele elogiou Wilhelm Dilthey por promover uma interpretação mais histórica e contextual dos textos, afastando-se do dogma. Gadamer argumenta que a compreensão de um texto envolve tanto a interpretação literal quanto a consideração de seu contexto histórico e cultural, propondo uma hermenêutica que se liberta das amarras do dogma e se abre para uma compreensão mais aprofundada da linguagem. [21]
A teoria de Gadamer sobre o círculo hermenêutico enfatiza a relação entre o todo e as partes de um texto, onde a compreensão do todo orienta a interpretação das partes individuais e vice-versa. Essa relação circular é essencial para uma interpretação profunda e significativa, onde o intérprete deve estar aberto a novas perspectivas e reinterpretações. Gadamer utiliza como exemplo a Bíblia para ilustrar sua teoria, mostrando como a compreensão de um texto sagrado envolve tanto a interpretação gramatical quanto a histórica. [22]
Em suma, a auto interpretação de Gadamer sobre o círculo hermenêutico de Heidegger oferece uma visão enriquecedora da hermenêutica, destacando a importância do contexto histórico e cultural na compreensão dos textos e propondo uma abordagem mais inclusiva e dinâmica para a interpretação.
5 – Créditos
Yuri Carvalho de Siqueira, graduando em filosofia pela Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande – MS. Salesiano de Dom Bosco – SDB. Contato: yuri@salesiano.br
6 – Referências
HEIDEGGER, M. Ser e tempo (1927), Partes I, Cap. 5, tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback, Petrópolis: Vozes, 2006.
Gadamer, Hans-Georg, 1900- Verdade e método / Hans-Georg Gadamer; tradução de Flávio Paulo Meurer. - Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. Título original: Warheit und Methode.
Fernandes, João Evangelista; A estrutura circular da compreensão na obra Ser e Tempo de Martin Heidegger / João Evangelista Fernandes. --Maringá, 2014.
Pizarro, Djalma, 1957- 2019 A hermenêutica filosófica gadameriana [recurso eletrônico] : sob as críticas do subjetivismo e da validade do sentido verbal/Djalma Pizarro. - 2019.
SAMPAIO, Juliana Lira
Fenomenologia-hermenêutica: um estudo da questão do método em Ser e Tempo / Juliana Lira Sampaio; orientador: Fernando Augusto Rodrigues da Rocha (UFRJ) – Rio de Janeiro: 2007.
[1] Gadamer, verdade e método, 1999
[2]
Heidegger, Ser e tempo, 2015
[3] Gadamer, verdade e método, 1999
[4] Fernandes, João Evangelista: A estrutura circular da compreensão na obra Ser e Tempo de Martin Heidegger / João Evangelista Fernandes. - Maringá, 2014. p.67
[5] ibidem
[6] Sampaio, Juliana Lira: Fenomenologia-hermenêutica: um estudo da questão do método em Ser e Tempo / , p81.
[7] (Heidegger, ser e tempo, 2005, p.184)
[8] Ibidem
[9] Ibidem p.185
[10] Ibidem p.185
[11]
Gadamer, Verdade e método, 1999, p. 274
[12] Ibidem
[13] (Gadamer, Verdade e Método, 1999, p.275)
[15]Ibidem p.279
[16] Ibidem p.279
[17]
Pizarro, Djalma, A hermenêutica filosófica gadameriana: sob as críticas do subjetivismo e da validade do sentido verbal
[18]
Gadamer, verdade e método, 1999
[19]Gadamer, verdade e método, 1999, p402)
[20]
Gadamer, verdade e método, 1999, p280)
[21]
Gadamer, verdade e método, 1999)
[22]Ibidem
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